O meu amigo Bibi!

Bibi era o Pinscher 0 da minha namorada, Edith. Já o conheci grandinho, se é que se pode usar esse adjetivo para um serzinho de menos de três quilos. Genioso. Ciumento. Logo que comecei a namorar a Edith, ele teve a desfaçatez de fazer cocô dentro do meu sapato, como se dissesse: “Você não é bem-vindo aqui, seu feioso!”. Bibi era terrível, mas o passar do tempo foi criando entre mim e ele uma amizade cheia de conveniências recíprocas: ele me deixava ficar pertinho dela e em troca eu lhe dava toda sorte de boa comilança, como grossas linguiças feitas na churrasqueira, bons pedaços de pizza quatro queijos e a gordurinha da picanha. Eu me sentava à mesa e lá vinha ele para perto de mim, com seus grandes olhos de cachorro chantagista e pidão. Eu cedia. Dava-lhe tudo, embora sob censuras da Edith: “Cachorro não pode comer salsicha, Rafael!”, mas o Bibi podia, ele era mais que um cachorro, era meu amigo.
Um dos pontos altos da nossa amizade era quando eu jogava a bolinha azul de borracha, que ia batendo nas paredes do longo corredor da casa, até se perder na sala enorme, indo parar debaixo do sofá, ou de alguma poltrona, ou ainda sob a estante, na qual repousavam mais de mil livros, de autores e assuntos os mais diversos.
E sempre vinha o Bibi de volta, com a bola azul de borracha muito bem apertada entre os dentes, para que eu a lançasse de novo, e de novo, e de novo, até ele resolver dormir, vencido pelo sono, em uma das quatro caminhas das quais ele era feliz proprietário.
Certa noite eu lancei a bolinha, mas ele não reagiu. Estava doente. A bolinha bateu nas paredes do corredor e foi se perder na sala imensa, sem que o dono a resgatasse.
A Edith houve por bem levá-lo à clínica, ele não retornaria mais. Que tristeza se abateu sobre nós! Que silêncio pesado! Que refeições sem gosto passaram a ser os almoços e jantares sem o Bibi e sem seus olhos de cachorro pidão!
Na sala imensa, eu e a Edith pegávamos algum livro para esquecer a dor. Foi assim que certa noite um volume espírita, aberto a esmo, veio nos consolar. Eu li para ela o que estava escrito:
“Quando nós amamos o nosso animal e dedicamos a ele sentimentos sinceros, ao partir, os espíritos amigos o trazem de volta para que não sintamos sua falta”.
Ela sorriu, embora seus olhos boiassem em lágrimas. Fomos dormir. Sonhei com o Bibi me pedindo linguiça assada e fatias de pizza e no sonho ele comia a ponto de lamber os farelinhos no prato. Estava feliz!
De manhã, a Edith me acordou e – sem dizer palavra – logo apontou para o chão. A bolinha azul de borracha estava ao lado dos meus chinelos. O Bibi encontrara – e só Deus pode explicar – um jeito de voltar para nós!
E nunca mais houve tristeza em nossos corações, só uma saudade boa de saber que ele foi muito feliz e que feliz ele permanece, lá no Céu que Deus criou para acolher todos os Seus filhos, sejam eles homens ou cachorrinhos!
Ao meu inesquecível amigo Bibi, dedico este textinho na certeza de que um dia vamos nos reencontrar, se Deus quiser, para brincarmos com a pequena bolinha azul na imensidão azul do Céu!









