Inspirados

Mãe tá sempre certa!

Eu devia ter uns 5 anos. Quando chovia, ficava brabo, porque não podia brincar fora de casa. Minha Mãe dizia que era importante chover pras plantinhas tomarem água e matarem a sede. Eu achava aquilo uma deslavada mentira e perguntava: “Como que a plantinha toma água se ela não tem boca?”, mas tinha, segundo minha Mãe.

E aí ela mostrava no jardim um amor-perfeito, que além de boca tinha olhos e bigode. Para aumentar a contundência da tese ela ia apontando cada estrutura na flor, afirmando que ali havia olhos, boca e bigode!

Eu, sabendo que era um absurdo, insistia que planta não tinha boca e ficava brabo até que ela admitisse que a água era importante, mas que havia terra, folhas, caule e raiz nessa jogada, em vez de olhos, boca e bigode.

Há pouco fui pagar contas no banco, pois eu sou desses que paga no banco, avesso que sou às traquitanas virtuais. Chovia. Mas uma chuva tão bem-vinda que não fiquei brabo. E no meio do caminho lembrei da minha Mãe que há 40 anos me disse que as plantinhas precisavam tomar água porque têm sede.


E juro que vi um amor-perfeito de olhos e boca arregalados tomando a bendita água que andava escassa em Curitiba. E tomou tanto que chegou a pingar água do bigode da flor! E a flor sorria com sua boca de pétala!

Na volta eu falei pra Mãe. “Sabe aquele amor-perfeito de quando eu tinha 5 anos? Aquele amor-perfeito que você disse que tinha olhos, bigode e tomava água pela boca, e que eu achava um absurdo? Sabe que, reparando bem, Mãe, parece mesmo que ele tem olhos, boca e bigode! Impressionante!”.

Mãe tá sempre certa!

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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