Inspirados

Escaldado de fubá

Ficar doente na infância era terrível! Era abandonar as brincadeiras, o picolé da tarde do carrinho que passava às 15h e enfrentar uma rotina de torturas! Primeiro vinha o sermão “falei pra não andar descalço”, “tá vendo, não agasalha direito, pega friagem, aí fica doente mesmo”. Depois os remédios com o gosto mais horrível que se possa imaginar. Chegava a mãe na porta, a xícara verde, pequena, de porcelana grossa e um biscoito na mão. A lágrima ardia nos olhos antes mesmo de beber o líquido “tapa o nariz, bebe de uma vez”. Quanta Novalgina nas febres de 40 graus em anos de uma pneumonia quase sem fim. Os banhos de água morna na banheirinha de bebê em que na verdade a água parecia gelada caindo no corpo quente além da conta.

No repouso contra vontade ouvia-se os amigos brincando na rua e às vezes a gente fingia uma melhora repentina pra ver se não conseguia entrar na brincadeira também. Brincar não podia, mas também não era aconselhável passar o dia “amuado” pois aí sim a doença piorava, precisava movimentar o corpo pra febre sair.

Apesar de tudo isso, hoje, na correria da rotina de “adulto”, sinto falta de ser cuidada como quando criança. Que saudade bate do escaldado de fubá para fortalecer durante as gripes e infecções de garganta, do caldinho de feijão com limão, do chá de hortelã, com as folhas colhidas na hora e um pouquinho de mel puro pra adoçar, tão quentinho, tão reconfortante. Como era bom a mãe passando vick vaporub nas costas e na sola dos pés.

Mas aí a gente cresce e tem que cuidar de si mesmo. Ninguém vem pôr o termômetro pra ver a febre, ler sermão, fazer chá, massagear com vick. A gente mesmo vai pra cozinha e faz o escaldado de fubá pra ver se a memória afetiva ajuda na cura. Às vezes a gente compra. Mas nunca é igual. Nunca vem junto com o carinho do outro naquele momento de nossa fragilidade.


As injeções doíam mais, porém, hoje tem dias que a ausência desses gestos singelos também doem e algumas vezes doem mais que a temida benzetacil.

Jaqueline Vieira

É francana, tem 42 anos e é formada em Letras, Pedagogia, especialista em Linguística e Gestão Pública. Educadora entusiasta, escorpiana intensa, apaixonada por vinhos, gastronomia e pela arte, amante das palavras escritas, suas eternas e fieis companheiras desde a infância. Instagram: @jaquevieirad

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