Inspirados

A paz de Capanema

Ele cumpria o expediente em uma repartição pública, das 9h às 18h, de segunda a sexta. Numa repartição pública ninguém é feliz, seja o servidor, seja o cidadão. “É como visitar um zoológico onde em todas as jaulas exista o mesmo tipo de bicho! Um zoológico apenas de bugios!”, ele tinha ouvido isso certa vez e guardou a frase para sempre, pois tinha o hábito de gravar na memória só o que lhe interessava. Era uma comparação engraçada para ilustrar a rotina burocrática e monocórdia.

Ele mesmo cumprimentava os colegas e pensava: “o bom dia pra um bugio devia ser uma banana!” e ria mentalmente ao perceber que era também um bugio, embora o crachá trouxesse seu nome de batismo e a nobre função de Assistente Administrativo nível 3. Era bugio, mas ocupava o lado menos fétido da jaula.

De ver tanta gente igual é que dava nele a fome por tipos diversos, coisa que mais existe no centro da cidade. Em volta do prédio oficial, as ruas imundas eram ocupadas por pessoas aparentemente loucas e todas aparentemente iguais. Ocorre que quando tudo parece igual é sinal de que existem grandes diferenças, cabendo ao bom observador separar umas das outras para enfim colher apenas o que se procura.

E naquele início de noite em Curitiba ele ia atrás de um louco na esperança de ouvir alguma coisa sensata ou pelo menos inusitada, ou seja lá que adjetivo se dê ao que falam os loucos.

Havia no calçadão da Saldanha Marinho, entre a José Bonifácio e a Rua do Rosário, cafetões, prostitutas e traficantes, todos eles atrás de dinheiro, e quem vive atrás do dinheiro ainda não endoidou de vez, ou por outra: já é o pior dos loucos, mas ele ia atrás mesmo é de conversar com Capanema, o mendigo mais famoso daquele trecho da cidade.

É até interessante pensar que uma celebridade municipal tivesse fama, apesar de não ter mais do que a marquise da esquina da Rua do Rosário com a Saldanha Marinho para se encostar, além de um colchão e um vira-latas, todos da mesma cor da calçada, que era de um encardido que lembra o céu de Curitiba quando se prepara pras chuvas torrenciais de janeiro.

Conversar com Capanema era aproximar do ouvido uma concha na beira do mar. Alguns ouviam o oceano e suas profundidades abissais, outros não ouviam nada. Ele chegou à esquina, acendeu um cigarro, ofereceu outro ao Capanema e quis saber que diabos afinal ele falava com os ratos e as pombas, pois se dizia que ele falava com os ratos e as pombas.

“Eu peço pros ratos não levarem meu corpo pra dentro daquele bueiro, porque do bueiro pra baixo é que fica o inferno. E peço pras pombas levarem minha alma pro céu, porque no céu é que a gente vive de verdade. Aqui a gente só precisa negociar com os ratos e com as pombas!”.

Ele ouviu o mendigo, depois riu, balançou a cabeça e exclamou um
esvaziado: “Que barbaridade!”, que é uma expressão que o curitibano usa quando não tem nada pra dizer e não pode ficar calado. Daí se despediu de Capanema, deu-lhe mais um cigarro, uma nota de cinco, um boa noite e um afetuoso “até qualquer hora, Capanema!”.

Dias depois, ao acessar um site de notícias policiais durante o expediente enfadonho na repartição onde servidores e cidadãos se misturam na mesma infelicidade, ele leu que Capanema tinha sido encontrado morto na esquina da Rua do Rosário com a Saldanha Marinho.

Os olhos feridos pelas pombas. Na notícia o repórter ainda escrevera: “Capanema tinha um sorriso no rosto!”.

Terminada a leitura, ele concluiu: “No céu, Capanema foi enfim viver de verdade!”.

Foi isso que ele pensou, enquanto carimbava e rubricava as folhas de um processo qualquer, num dia monocórdio, de uma rotina burocrática. Numa repartição onde servidores e cidadãos eram tristes, foi isso que ele pensou e sorriu, inacreditavelmente feliz.

Depois se ouviu pela cidade que os homens da Prefeitura recolheram o corpo de Capanema ao IML e sepultaram no municipal Zona Sul.

A alma as pombas levaram. Capanema sabia negociar.

“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes”. (1 Coríntios 1:27).

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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