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Uma cidade distante, a música sertaneja, o ciúme e as balas

Essa a história de uma paixão louca, que aconteceu em uma cidade muito distante que ninguém sabe bem onde é, e nem se é verdade.

Ele nunca tinha visto uma mulher tão linda, foi amor à primeira vista. Seu coração bateu forte e ele dizia a qualquer um com os olhos brilhando:

“Uma dose de saudade, misturada com paixão, me deixa de cabeça tonta e embriaga o coração, a gente se entrega, chora sem querer. Estou ficando louco, apaixonado”[1].

Como todo homem, ele tentou impressioná-la. Disse que, certa vez, montou num boi brabo e sem dar muitos detalhes contou:

“Eu fiz a maior proeza pras bandas do rio da morte”[2].

Ninguém acreditou naquela história mentirosa, a não ser a mulher, que ficou atraída por aquele peão boiadeiro. Ele aproveitou a oportunidade e se declarou:

“Pra falar do amor de verdade, vou começar pela melhor metade, te mostrar tudo de bom que tenho e se for preciso eu desenho que eu amo você, que eu quero você”[3].

E assim passaram a viver juntos. Se a convivência era boa? Brigavam muito, e mesmo de mal um do outro ele batia no peito:

“Perguntaram pra mim, se ainda gosto dela. Respondi, tenho ódio e morro de amor por ela”[4].

E depois das brigas, dos xingamentos, passava-se a fase das pazes, a hora do amor, e sempre a mesma declaração:

“Quando eu digo que deixei de te amar, é porque eu te amo. Quando eu digo que não quero mais você, é porque eu te quero. Não posso imaginar o que vai ser de mim se eu te perder um dia”[5].

Chegou o momento que o casamento caiu em uma pesada rotina, de exceção, as brigas se tornaram regra e avolumaram-se. O ciúme se tornou um problema. Movido por esse sentimento, ele instalou um aplicativo espião no celular dela. Descobriu que ela frequentava uma casa de duas a três vezes por semana e lá ficava por mais ou menos duas horas.

Cego de ciúmes e com a certeza da traição, caiu em desespero e depressão. Após o trabalho se entregava a bebida, frequentando bares, quando levantava o dedo e pedia:

“Desce uma geladinha, que hoje eu vou perder a linha, vou beber até amanhecer. Se não tem, traz pinga mesmo, que amanhã é outro dia. Se eu perder essa mulher, credo em cruz, Ave Maria”[6].

Ao perder o medo das consequências terríveis que viriam da certeza da traição, resolveu passar a história a limpo e foi até a casa que o aplicativo apontava. O antro de sua derrocada como marido.

Invadiu a casa.

Confundido com um bandido, foi recebido a balas pela moradora e saiu gritando vergonhosamente pelas ruas:

“Sai já do meu pé. Será que ela é do FBI? Eu me rendo, me entreguei. Chega dessa história de bancar a delegada da paixão”[7].

Preso pela polícia, mas nem tanto, se lamentou às enfermeiras do hospital:

“É por isso que ela ficava com suas amigas até tarde. Pulga atrás da orelha não tem veneno que mate. Por que é que eu fui investigar? Procurei, e achei. Deus me livre! Esse aperto é mal de chifre”[8].

Após alguns dias, recuperado, abandonado pela mulher, agoniado e sem a certeza se foi ou não traído, ele ainda é visto falando sozinho pelos botecos da vida:

“Faz mais uma vez comigo, só mais uma vez comigo. Eu quero te encontrar de novo, volta pro meu corpo, é disso que eu preciso”[9].

1 ‘A Gente se Entrega’, Rionegro e Solimões

2 ‘Fazenda São Francisco’, João Paulo e Daniel

3 ‘Duas Metades’, Jorge e Mateus

4 ‘Entre Tapas e Beijos’, Leandro e Leonardo

5 ‘Evidências’, Chitãozinho e Xororó

6 ‘Credo em cruz, Ave-Maria’, Bruno e Marrone

7 ‘Delegada’, Fernando e Sorocaba

8 ‘Condomínio Fechado’, Zé Neto E Cristiano

9 ‘Faz Mais uma Vez Comigo’, Zezé di Camargo e Luciano

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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