Sustentabilidade e Governança: entre a lógica do capital e a necessidade de responsabilidade coletiva

Com a globalização, todos os temas ligados ao capital viraram responsabilidade de todos — não apenas das empresas, que têm como finalidade clara o lucro e o acúmulo de riquezas, mas também do impacto que essas instituições geram na região em que estão inseridas. Desse modo, em nosso tempo, não basta apenas a qualidade do produto. Ao contrário, importa o que foi impactado desde a matéria-prima retirada da natureza, passando pela linha de produção — no que se refere ao uso adequado da energia —, pelo trabalhador e seus direitos contratuais, até a chegada ao consumidor final e o respectivo descarte.
Em outras palavras, diante de tanta concorrência, da velocidade de criação de novos produtos para manutenção do mercado, da baixa durabilidade como justificativa para a produção em escala e da dificuldade de descarte — dada a limitada capacidade de absorção do meio ambiente —, o tema sustentabilidade torna-se uma questão de ordem. Cabe observar que os ODS não são, em si, a salvaguarda da exploração desmedida dos recursos naturais em prol do “dinheiro”, tampouco a solução para o problema do descarte dos produtos.
Todavia, se considerados como proposta, constituem um planejamento aplicável no apoio à construção de políticas públicas, para além das regras do mercado. Podem ser uma medida orientativa (indicador) capaz de gerar valor e, assim, uma ferramenta para evidenciar o valor da empresa diante dos concorrentes.
Outrossim, ainda que o lucro seja o principal fator para o investidor, a responsabilidade social, no contexto atual — marcado pela globalização e pelas negociações internacionais —, ampliou os pilares. Não se trata apenas de objetivos econômicos, mas da incorporação de direitos sociais e ambientais.
Inspiram-nos as pesquisadoras Daniela M. Salvioni, Francesca Gennari e Luisa Bosetti, ao afirmarem que “a sustentabilidade corporativa significa que as empresas devem considerar o futuro e o presente em suas decisões e ações, com o objetivo de usar seus recursos para criar valor a longo prazo”.
Na prática, para que interesses próprios não entrem em conflito e sejam eficientes em sua aplicação, foi necessário definir regras claras. Além disso, com a criação de um sistema de “freios e contrapesos” corporativos, surge o conceito de governança, pautado na clareza e no alinhamento das regras estabelecidas.
Sabe-se que a responsabilidade social corporativa pode ser analisada na dimensão interna da empresa, que visa à revisão de prioridades, com atenção a aspectos como segurança e condições de trabalho, direitos humanos, igualdade de oportunidades, saúde e direitos trabalhistas, entre outros. Todavia, estrutura-se também no aspecto externo, quando a empresa assume seus deveres como agente social, dando a devida atenção às dimensões econômicas, sociais e ambientais. Isso é denominado “responsabilidade social empresarial”.
Conforme defendem Salvioni, Gennari e Bosetti, “no mundo de hoje, a abordagem sustentável da governança corporativa pode ser uma fonte de vantagem competitiva e um fator de sucesso a longo prazo. As empresas que entendem as questões ambientais, sociais e de governança como centrais e as gerenciam de forma adequada efetivamente criam valor”.
Diante disso, a ética e a moral tornam-se centrais para a aplicação da governança corporativa. Esta, infelizmente, não possui força suficiente frente à pressão predominante das relações comerciais, sendo, muitas vezes, adaptada para viabilizar sua aplicação. Já a governança sustentável exige que a corporação considere, de forma intersetorial, os aspectos econômicos, sociais e ambientais — independentemente de sua estrutura patrimonial ou das regras a que está submetida. Assim, a governança torna-se um meio para a implementação de processos que garantam o desenvolvimento sustentável a longo prazo.
Defende-se que somente é possível promover a convergência de objetivos comuns por meio de ações coletivas. O desenvolvimento sustentável, necessário a todos, só pode ser alcançado por meio de ações estruturadas e claras, construídas a partir da governança.
Referência:
SILVA, Daniel Cargin. DUTRA, Ademar. SEHNEM, Simone. MARTIGNAGO, Graciella. Capitalismo consciente e governança corporativa: construção de conhecimento com base na literatura. Revista Navus- Revista de Gestão e Tecnologia, Volume 8, n.3, 2018. Disponível em : https://navus.sc.senac.br/navus/article/view/674/pdf Acesso: em 08 set de 2025.
A empresa do século XXI: criando valor compartilhado em tempos de um capitalismo consciente. Revista Argumentum, Volume 15, jan-dez. 2014. Disponível em: https://ojs.unimar.br/index.php/revistaargumentum/article/view/5 Acesso: em 08 set de 2025.








