Revisão do que é obesidade
No dia 14 de janeiro de 2025, a revista The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou o trabalho de uma importante comissão que revisa a definição e os critérios diagnósticos da obesidade clínica, alterando profundamente nossa compreensão dessa condição.
Com a nova conceituação e estrutura diagnóstica, a Comissão diferencia a obesidade como fator de risco (obesidade pré-clínica) de quando ela se torna uma doença independente (obesidade clínica).
Novos Critérios
A nova definição baseada em evidências distingue entre “obesidade clínica”, uma condição crônica e sistêmica causada diretamente pelo excesso de adiposidade, e “obesidade pré-clínica”, caracterizada pelo excesso de adiposidade sem disfunções orgânicas atuais ou limitações nas atividades diárias, mas com um risco aumentado de problemas de saúde no futuro.
Exemplos de disfunções associadas à obesidade clínica incluem:
– insuficiência cardíaca congestiva;
– diabetes tipo 2;
– apneia do sono;
– osteoartrite;
– doenças hepáticas gordurosas não alcoólicas.
A Comissão também criticou o uso exclusivo do índice de massa corporal (IMC) como padrão de diagnóstico devido às suas limitações. Em vez disso, propõe a adoção de outras medidas de tamanho corporal, como a circunferência da cintura, a relação cintura-quadril e a relação cintura-altura. Essas novas medidas devem ser igualmente fáceis de realizar, garantindo que possam ser implementadas em diferentes contextos, independentemente dos recursos disponíveis.
Impactos na Saúde Pública e na Sociedade
A novidade de estrutura diagnóstica proposta pela Comissão referida na internacional publicação especializada tem o potencial de transformar a gestão da obesidade, tornando-a mais acessível e eficaz.
Políticas de tratamento existentes, como acesso à cirurgia ou medicação, muitas vezes se mostram inadequadas e precisam ser reformuladas para priorizar os indivíduos com maior necessidade.
Para aqueles com obesidade pré-clínica, a prioridade será a mitigação de riscos através de mudanças no estilo de vida e outras intervenções preventivas.
A Comissão também sugere uma revisão dos dados epidemiológicos atuais, que dependem exclusivamente do IMC. Esses dados devem ser atualizados para refletir a obesidade como um espectro de condições médicas.
Auditorias preliminares de bancos de dados indicam que muitos indivíduos considerados obesos pelo IMC não atendem aos critérios de obesidade clínica.
É necessária uma visão mais abrangente do estado de saúde do indivíduo para melhorar o gerenciamento e a compreensão da condição.
Combate ao Estigma e Novo Paradigma no Tratamento
Uma parte importante da proposta é a redução do estigma associado à obesidade.
Muitas pessoas evitam buscar tratamento devido ao preconceito enfrentado em ambientes médicos. A nova abordagem, que prioriza diagnósticos objetivos e uma maior empatia, pode mudar a percepção social da obesidade, incentivando mais indivíduos a procurar ajuda.
Ao reconhecer a obesidade como uma condição crônica e complexa, espera-se melhorar a qualidade de vida dos pacientes e otimizar o uso dos recursos dos sistemas de saúde.
Números Assustadores
Com mais de 1 bilhão de pessoas vivendo com obesidade em todo o mundo, as diretrizes da Comissão, se implementadas corretamente, podem trazer benefícios significativos para a saúde pública, além de transformar a abordagem atual em relação à condição.
A Comissão recomenda um futuro onde cada paciente seja tratado com base em suas necessidades individuais, não apenas por um rótulo genérico, promovendo uma abordagem mais inclusiva e eficaz para a obesidade.
A íntegra do artigo da revista The Lancet você acessa aqui: https://www.thelancet.com/commissions/clinical-obesity
Théo Maia Pedigone Cordeiro
médico especialista em Medicina de Família e Psiquiatra








