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Medo de trovão

Jhully era uma cachorrinha de escuros pelos curtos, animadíssima e às vezes sorrateira. Viera de Passos dentro de uma caixa de papelão, aninhada e toda curiosa, até a chácara onde vivia Mangotinha e sua família.

Nos primeiros dias de seu novo lar, ficara acanhada, orelhas baixas e rabinho entre as pernas, receosa de levar bronca e lhe mandarem embora. Porém, quando entendeu que ali era seu pequeno reino, ganhou adrenalina! Passava horas explorando cada canto da chácara e, muitas vezes, acompanhava sua querida matilha pela longa estrada de terra, alcançando a rodovia Ronan Rocha ou até as cercanias de Patrocínio Paulista.

Quando precisava era feroz e caçadora: coitada das galinhas que ela pastoreava. No mais, se mantinha dócil e até razoavelmente amigável com visitantes, mantendo uma distância confortável e segura para ambos; sempre cautelosa, claro, nunca se sabe se no pote de ração tem ração.

Tudo mudava quando densas nuvens surgiam no horizonte, trazendo gotas geladas, vento constante e a cavernosa voz que retumbava pelo céu: trovões que faziam Jhully ganir de medo, sempre se escondendo dentro de casa, aos pés do sofá. Ela se enrolava, fechava os olhos e imaginava um dia de sol, perseguindo algum velho galo.

Numa tardezinha que não prometia nada, Jhully corria pela estrada, bem à frente do pai de Mangotinha que precisara ir em um vizinho. No retorno para casa, ela se distraiu farejando um lagarto tiú e quando percebeu, se encontrava no meio de um bambuzal, sozinha.

Ou quase.

Assim que visou sair dali e seguir o cheiro da matilha, um trovão explodiu, causando tremores ao redor de Jhully, instintivamente ganindo de dor, tentando se entocar entre os bambus.

– Não tenha medo, garota – disse calmamente uma voz. – É só uma rápida chuva no outono.

Jhully eriçou os pelos, arqueou o focinho e olhou na direção de um salsichinha que se aproximava. Ele repetiu a frase para que ela não tivesse medo, enquanto se refugiava dos primeiros pingos que caíam.

– Eu… eu não consigo – respondeu Jhully apertando os olhos ao som de outro trovão. – Parece que vai cair tudo em cima de mim…

– E os relâmpagos? Você não os teme?

Negando com a cabeça, Jhully sussurrou que os achava fascinante com todo aquele brilho, aquela força. Então com seu focinho, o salsichinha pediu licença e tocou a testa da apavorada cachorra. No mesmo instante, ela sentiu seu coração pulsar rápido, destemido.

– Se você quer ver a beleza de um raio, tem que enfrentar seu medo, garota.

Com as patas firmes, Jhully saiu naquela tempestade estrondosa que nem Kíke ou Escudeiro arriscariam voar por aquelas nuvens, e esperou. Sentiu o formigamento que antevia o brilho, pulou na direção que acreditava e antes que o raio atingisse a terra, Jhully o mordeu e o devorou.

De seus olhos saíram faíscas fulgurantes. Olhou para trás, agradeceu ao salsichinha e riscou os céus, deixando ramificações de plasma por todo o horizonte.

Às vezes Jhully voltava para casa, implicava com alguma galinha e dormia toda serena. Acordava elétrica, pedia carinho da família e, logo depois de se alimentar, voltava aos céus para pastorear as nuvens da região de Franca.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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