Orla do Porto

Com uma vasilha na mão esquerda e o fouet na outra, Rasqueado produzia uma fofa e branca neve na imensidão de claras a seu dispor. Era um dia daqueles no restaurante do hotel, ao que gritos e correria se normalizavam na guerra contra o afunilado tempo.
Todavia, uma brisa adentrou pela cozinha, espalhando perfumes da terra, de água corrente que fizeram Rasqueado parar e contemplar o nada, abrindo espaço para as memórias de quando caminhava às margens do rio Cuiabá, naquelas manhãs de sábado enquanto não havia uma alma na rua. Era ele, o rio, o céu, as coloridas fachadas históricas e a reverberação de seus passos na grandiosa calçada.
Não se arrependia da mudança para Franca, de estar com sua esposa e seu filho. Mas a saudade vinha no raso dos olhos e se escondia, calminha, cochichando coisas de sua infância…
Naquele junho do frio que atravessava o capim-mimoso e suas colinas, fora convidado para participar de uma quermesse, cuidando da barraquinha de canjica. Aceitou com gosto, visualizando planos de trazer alguns toques culinários de sua antiga cidade, mostrar como era ser criança na região central do país.
E sempre tinha aquilo, né. “Tudo tem que estar perfeito ou será vexame nacional”, confabulava a mente de Rasqueado, alfinetando o coração ansioso, exagerando em coisinhas à toa enquanto organizava a lista de afazeres e ingredientes, pontualmente pensada para o que queria.
Ele não tinha todas as horas de seu dia para dedicar à tarefa, trabalhando no hotel e muitas vezes sendo requisitado em outros restaurantes (uma renda extra nunca é ruim); Rasqueado mal parava para almoçar. Não reclamava, afinal batalhara por muitos anos para conseguir o que queria e, quando percebeu, a fama de ser um dos melhores chefs da região se alastrara como as coloridas bandeirinhas juninas por todas as ruas francanas.
— E por que não tem seu próprio restaurante?
Esse não era um alvo de sua vida. Se a vontade de ir para outro lugar do mundo surgisse, juntaria a família e até a próxima.
Abaixou os olhos para os ingredientes listados, convicto de que tudo era possível adquirir pela região, entretanto algo deveria vir de longe, em uma velha fazenda nos arredores de Cuiabá: o milho da canjica, tão amarelo quanto o pôr-do-sol na Orla do Porto.
Lembrou do fim de expediente numa churrascaria, descansando depois de muitas horas assando carne. Garrafa de cerveja, mesinha de plástico e acompanhado por alguns colegas de serviço como o debochado Escudeiro, o piadista Passense e o estridente Tarcísio. Bom, este último contara que seu cunhado, Deninão, era caminhoneiro. Quem sabe não estava de rota por Mato Grosso?
Precisamente não, mas daria um jeito de pegar um carregamento por lá.
Nem eira, nem beira. O milho chegou com antecedência.
A noite da quermesse riscou o calendário em músicas, cores e cheiros que se mesclavam pela Praça Nossa Senhora Aparecida, do outro lado da rua, em frente à Capelinha.
Veio tudo quanto é gente da cidade ou de fora, agasalhados contra o frio açoitado pelo vento noturno, marcando rostos em vermelho e mãos geladas.
O que era muito bom para a canjica de Rasqueado. Mal tendo percebido o início da festa, uma longa fila se estendeu de sua barraquinha, difundindo a notícia da incontestável doçura que vinha dali.
— Pai, é como se um sol aquecesse minha barriga. Que delícia! — dizia seu filho depois de comer a terceira tigela.
Em um sorriso encabulado, o chef de cozinha contemplava as estrelas na profundeza do céu, fechava os olhos por alguns instantes e se sentia bem, muito bem.






Estou a chorar ? Sim! Estou sem palavras para esse conto, tem emoção amor e comida e magnífico