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Que Franca você habita?

Por Maria Luiza Salomão

Não nasci em Franca, cheguei meio assustadinha com 9 anos. Saí, nos meus 18 anos, querendo abrir asas, saber do mundo. Voltei casada, psicóloga, tive dois filhos seguidinho. Cultivei espaços, afinei escutas, conheci grupos de pessoas com modos de vida diferentes. Como tem grupos em Franca! Religiosos, literários, amigos antigos. Circulei em muitas esferas…

O que Franca fez em mim? O que fiz em Franca? Como definir um espaço geográfico, impessoal, e torná-lo íntimo, adotá-lo como seu? O que vejo/não vejo onde habito? O que vivo/não vivo?

Será a mesma cidade para TODA esta população, que deixei em 1970 com aproximadamente 70 mil habitantes, e hoje bate em 400.000? Cidade que entretece sonhos de tantos? Aquém ou além das colinas, vales, sombras e luzes, vivemos na mesma cidade?

Mal nos conhecendo, e nos reconhecendo, no breu das letras, dançantes, rítmicas, silenciosas, desordenadas, canções de dor/alento/força/fé/alegria? O que nos une?

Casas onde morei mocinha moça/adolescente, na Major Nicácio, elas não mais existem. O Clube dos Bagres: nadava todos os dias e lá acompanhava o basket francano, ele não é o mesmo.

  • Não sou a mesma.

A praça do meu “footing” – o que virou? Os três cinemas, assídua frequentadora que fui do Cine Avenida, São Luiz e Odeon, não são cinemas… não mais. A Bombonière? Meu gosto será o mesmo para balas torino e aquele chocolate crespinho com amendoim?

A Livraria do Commercio – passeio preferido no “centro” – destruída! Sumiu em meio a tantas lojas que não sei, não sei mesmo, o que vendem…

Meu IEETC – Admissão/ginásio/científico. Científico de manhã e Normal, à noite, no ATENEU: nem reconheço a esquina que minha mãe me buscava, curso dedicado a ela, que me queria professora.

E o inglês da tia Ceição, nas suas garagens de casas desaparecidas? Meu inglês enferrujou, mas a língua permanece, fortalecendo meu entendimento, ampliando meus horizontes.

Cidade invisível para olhos jovens. Viva aos olhos meus. Uma Franca do tamanho do que nela vivi. Atemporal. Em geografia da alma – localização só minha. Quanto passado ela tem nos seus 200 anos…quanto presente existe fruto do meu passado aqui…quanto futuro ainda viverei nela, com ela, para ela?
A Franca que construo/construirei será outra. Outra serei.

Maria Luiza Salomão é psicanalista pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e mediadora de leituras, participante do projeto Rodalivro, membro da Academia Francana de Letras. Correspondente da Afesmil (Academia Feminina Sul-mineira de Letras).

Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.

Maria Luiza Salomão

Maria Luiza Salomão é psicanalista pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e mediadora de leituras, participante do projeto Rodalivro, membro da Academia Francana de Letras. Correspondente da Afesmil (Academia Feminina Sul-mineira de Letras).

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