Colunas

Histórias do outro lado do espelho

Parte IV

Ao adentrar o corredor, a moça pôde comprovar que ele realmente estava mais longo e estreito que de costume. As portas das salas de aula estavam todas fechadas, e algo que ela não pôde deixar de notar era que agora estavam pintadas de vermelho, onde antes eram apenas envernizadas. Sua cabeça girou nesse instante. Onde estou?

A secretária estava seriamente cogitando a possibilidade de estar em um surto psicótico ou algo do tipo.

— Preciso encontrar a diretora agora. Eu não sei o que está acontecendo — disse ela, com os olhos marejados.

Ela correu em direção à sala da diretora e percebeu que a maçaneta, em vez de estar no lugar convencional, estava na parte de baixo da porta, como se tivesse sido feita para que fosse necessário se agachar para abri-la. A secretária se agachou, girou a maçaneta — mas a porta estava trancada. Bateu três vezes, mas não obteve resposta. Rapidamente, ela se levantou e correu até a cozinha, a fim de encontrar a faxineira, que mais cedo ela havia visto na recepção da secretaria.

A cozinha estava aberta e sem sinal de vida — apenas uma panela com água fervente, que parecia ter sido esquecida no fogão. A moça tentou desligá-lo, mas não conseguiu; o botão parecia emperrado. E dentro da panela, que à primeira vista parecia conter apenas água fervente, borbulhava um caldo grosso, escuro e malcheiroso.

A secretária saiu correndo e, ainda dentro do corredor — que, a essa altura, parecia não ter fim — finalmente encontrou uma porta aberta.

— Oi, mocinha, o que você tem? — perguntou-lhe uma voz familiar. Era a faxineira.

A secretária olhou para dentro da sala e, quando estava prestes a suspirar aliviada por ter encontrado alguém, soltou um grito de pavor.

Dentro da sala estava a faxineira, com as mãos todas cortadas, provavelmente pelos vários cacos de espelhos quebrados e espalhados pelo chão. Ela parecia transtornada e repetia sem parar:

— Não se preocupe, mocinha… É só a gente quebrar todos eles que a gente consegue sair daqui.

Depois disso, soltou uma gargalhada tenebrosa, como se estivesse tendo um surto.

A secretária saiu correndo de pavor e, quanto mais ela corria, mais o corredor parecia crescer e se estreitar. Enquanto corria, percebia que tudo era diferente da escola que conhecia tão bem — afinal, além de trabalhar ali, também havia estudado naquele lugar.

Havia portas de tamanhos e cores diferentes, paredes com texturas diversas, e o piso ia ficando mais escorregadio à medida que ela avançava.

De repente, a secretária se deparou com outra sala aberta. Era o banheiro feminino. Apesar de estar um pouco diferente do que ela estava acostumada, à primeira vista parecia um banheiro normal.

Ela olhou no espelho, enxugou as lágrimas e, ao tirar o moletom todo suado, não pôde deixar de notar que a blusa que ela havia vestido do lado contrário agora estava do lado certo.

— Meu Deus… eu enlouqueci mesmo. Tenho certeza disso — disse, olhando para a blusa e percebendo que, através do espelho, ela estava normal, mas fora dele continuava às avessas.

— Onde é que eu estou? — perguntou ela, olhando seu reflexo no espelho. Enquanto isso, pela porta entreaberta do banheiro, era possível notar que o corredor continuava lá — mais escuro do que nunca

Evanuse Fernandes

É Graduada em Psicologia pelo uni-FACEF com orientação em Psicologia Analítica/Junguiana, Graduanda em História pela Uniube, e Pós-graduanda em Psicologia com Intervenção em Drogas pela Faculeste.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo