Da morte

Num momento de tantas mortes, tamanhas perdas, faz-se necessário falarmos sobre o luto. Por mais que saibamos conscientemente que a morte é uma parte inseparável da vida, que o falecimento significa transformação, de uma forma geral nós não a aceitamos facilmente, nós a amaldiçoamos porque nos sentimos impotentes diante de suas imposições, principalmente porque reconhecemos, na perda de alguém, a falta, a saudade, sobretudo, uma experiência para a qual nascemos predestinados. Mas é justamente por essa imensa dificuldade que quase todos nós temos em admitir a morte que ela se faz tão assustadora.
Parábola zen
Há uma parábola zen budista que ilustra muito bem isso. Consta num dos Sutras que uma mãe chegou à casa de Buda com o filho morto nos braços, suplicando que ele o fizesse reviver. Cuidadoso com essa mãe, sobretudo com as suas esperanças, ele não lhe disse da impossibilidade de ressuscitar o menino. Buda pediu a essa mulher conseguisse alguns grãos de mostarda, colocando, porém, uma condição: para trazer o menino de volta à vida, esses grãos deveriam vir de uma residência onde nunca houvesse morrido ninguém. A mãe andou todo o vilarejo, bateu de porta em porta, sem encontrar uma única casa sequer livre de perda. Se não conforta, essa história ao menos nos diz algo óbvio desse momento em que o indizível se impõe, do sentimento de perda, da forma de sofrimento que palavra nenhuma aplaca: que a morte desorganiza e deprime, mas é comum a todos os viventes.

Do luto
No texto Luto e Melancolia (escrito em 1915), Freud diz que o luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma ausência de interesse pelo mundo externo, a mesma dificuldade em adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele: tudo o que ocorre na melancolia, hoje denominada depressão. A diferença é que no luto, toda a energia do enlutado em investida no objeto perdido e na melancoliaé toda investida no próprio ego, só que forma ambivalente, conflituosa, de auto ataque.
Melancolia
Para Freud, a melancolia seria a forma patológica do luto e o luto, não seria patologia, mas um processo de trabalho psíquico mediante a perda de um objeto. Ou seja. Enquanto o sujeito, no trabalho do luto, consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia, ao contrário, ele se supõe culpado pela morte ocorrida, ou pela perda em si, em suma, o eu se identifica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se perder no, abre aspas para definição de Elizabeth Roudinesco, “desespero infinito de um nada irremediável”.
Trabalho do luto
No trabalho do luto, toda a libido precisa ser retirada do ‘objeto’ em que era investido. Essa “exigência” provoca naturalmente uma resistência, como disse Freud: “as pessoas não abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já lhes acena. E assim, prolonga-se, psiquicamente a existência ao menos internamente do objeto perdido. Mas fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica livre e desinibido outra vez. A melancolia, pode ser uma reação a um objeto perdido, mas não é tão claro o que foi perdido como no luto.
Luto é processo.
O luto é o momento de lidar com a perda, com a ausência.

Psicologicamente, é marcado por fases (resumidas no quadro) e estágios universais, que são:
- 1- Desorientação, Torpor, Negação e Isolamento;
- 2- Anseio, Raiva e Busca da figura perdida;
- 3 Dor Profunda e Desespero;
- 4- Reorganização e Reelaboração;
- 5- Aceitação.
Portanto, se há alguém ‘enlutado’ na sua convivência, respeite-o.
Respeite sua necessidade de estar quieto; não seja desagradável; não force situações; não seja invasivo; respeite o tempo que essa dor precisa para ser elaborada. Respeite.








