Ciscando Aventuras

FILME: A vida secreta das palavras
(filme espanhol, direção: Isabel Coixet, 2005, 115 minutos.)

Hanna (Sarah Polley) é uma jovem parcialmente surda e solitária que trabalha em uma fábrica têxtil. Chama a atenção de seu chefe a vida compulsivamente devotada ao trabalho e lhe pede que ela tire férias. Nos dias de sua licença, casualmente, ela consegue um emprego como enfermeira em uma plataforma de petróleo no mar, para cuidar de Josef (Tim Robbins), um trabalhador acidentado que perdeu temporariamente a visão. Entre estes personagens, e outros trabalhadores na plataforma, desenrola-se a vida secreta das palavras. A maior parte da história acontece na plataforma de petróleo.
A revelação do drama enfrentado por Hanna mostra uma mulher traumatizada pela guerra dos balcãs. Em tempos de guerra (quando o mundo não enfrentou alguma guerra em algum lugar do planeta?), é bom ver o estrago que a população civil enfrenta. E mais ainda as mulheres, tratadas como espólio de guerra, sendo violentadas, estupradas, torturadas, crianças são mortas cruelmente, “filhos dos inimigos”, demonizados que são e expressão máxima de genocídios, em nome de uma depuração de raça, religião, preconceitos.
Há um drama secundário vivido por Josef (o excelente Tim Robbins), de quem Hanna assume o cuidado, como enfermeira voluntária, e também chama a atenção de Josef a vida robótica de Hanna. Nada revelo aqui para não dar spoiler, já que há um certo suspense na narrativa da história, excelente roteiro da diretora Coixet. Muito é revelado, com sutileza e delicadeza, na construção do relacionamento íntimo de Josef e Hanna. Tragédias são coletivas e há tragédias pessoais, resultado de guerras interiores. Um filme para se guardar. Já o comentei em palestra, e ele me retorna em cenas aqui e ali, como um sonho recorrente.
LIVRO: Morreste-me
(José Luis Peixoto, 1. Edição, 2015, Ed. Dublinense, 64 páginas.)

José Luís Peixoto nasceu em Galveias, em 1974. É um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias, traduzidas num vasto número de idiomas, e é estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras. Em 2001, após imenso reconhecimento da crítica e do público, foi atribuído o Prêmio Literário José Saramago ao romance Nenhum olhar.
Em 2007, Cemitério de pianos recebeu o Prêmio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado na Espanha. Com Livro, venceu o Prêmio Libro d’Europa, atribuído na Itália ao melhor romance europeu do ano anterior. Em 2016, Galveias foi o vencedor do Prêmio Oceanos.
“Morreste–me” foi o livro (novela) que revelou o escritor português José Luís Peixoto. Publicada em 2000, é uma obra tocante e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora. “Um dos escritores mais dotados de seu país.” Le monde “Peixoto tem uma extraordinária forma de interpretar o mundo, expressa pelas suas escolhas certeiras de linguagem e de imagens.” Times Litterary Supplement. Esta obra foi classificada como um dos 10 livros portugueses da primeira década do século XXI.
Após o sucesso de Morreste–me, José Luís Peixoto retoma o seu principal tema – o luto – com a mesma sensibilidade e grandeza na construção imagética, com A criança em ruínas. Transitando desde a melancolia à beleza do nascimento, do saudosismo ao cansaço, aqui encontramos “o último esconderijo da pureza”: seus versos. Livro vencedor do Prêmio da Sociedade Portuguesa de Autores, esta poesia:
na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva. cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho. mas irão estar sempre aqui. na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.
POR QUE GOSTEI: Eu me encantei por este autor português primeiramente com este livro de poemas – A criança em ruínas. Este poema reproduzido acima, me capturou. Seremos sempre cinco.
O poeta, escritor, comove com grande profundidade. Prefiro registrar algumas de suas palavras, deixando o leitor impregnado de seu olhar poético, retiradas do livro Morreste-me.
“Doía-me a vida, doía-me a vida que em ti se negava, a vida a gastar-te, ainda que a amasses, a vida a derrubar-te, ainda que a amasses.”
“E este lugar que era mundo, agora, vazio oco quer ser mundo ainda. E, realmente, tudo se mantém suspenso. Tudo quer e tenta ser igual. Todos parecem acreditar. Sem ti, as pessoas ainda vão para onde iam, ainda seguem as mesmas linhas invisíveis. Mas eu sei, pai. Perderam-se as leis contigo. Perdeu-se a ordem que trazias. Pai”
“as pessoas passavam por mim como se a dor que me enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também.”
“E avanço e avanço rumo ao que fomos.”









