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Barbie Boy

Uma verdadeira febre o filme ‘Barbie’ (2023). Salas de cinema lotadas com pessoas vestidas de cor-de-rosa.

Eu não assisti ao filme. Não por achar que isso vai ferir minha masculinidade, muito pelo contrário, Margot Robbie, a protagonista, aumenta a produção de testosterona de qualquer homem.

Um amigo foi ao cinema com a esposa para assistir. Pensei que quem queria ver era da esposa, mas fui surpreendido com ela me contando, muito irritada, a presepada cinematográfica:

_ Uai! Fomo vê Barbi e cê num sabe a vergonha cosseu amigo me feiz passá. Um homi desse de barba cor di rosa no shópi. E ainda chorô no firme.

Antes que eu me recuperasse do choque e caísse na risada, meu amigo começou a explicar que, quando era moleque, sua mãe não lhe quis comprar bonecos da coleção ‘Comandos em Ação’, não por falta de dinheiro, mas porque eles usavam armas.

_ Armas só com a luta armada. Viva Che! – dizia sua mãe, professora universitária e cantora de MPB nas horas vagas.

Quando o primo de um amigo da escola apareceu com ‘Snake Eyes’ e ‘Storm Shadow’, os dois ninjas da coleção, meu amigo caiu adoentado.

_ Olha o que o consumismo fez com esse menino. – repetia sua mãe.

Contradizendo seu discurso anticonsumista, sua mãe presenteou sua irmã com uma boneca Barbie. A partir daí ele encontrou a solução. Enquanto sua irmã estava na escola, ele brincava com a boneca Barbie.

Não se engane, havia diferenças fundamentais. Com sua irmã, a Barbie preparava comida e se arrumava toda para namorar o Ken.

Já sob a tutela imaginária do meu amigo, em certos dias Barbie empunhava uma katana e lutava contra espadachins numa sinagoga no Tibete, em outros enfrentava um monstro alienígena numa estação especial situada num planeta remoto.

A perspicácia da fantasia infantil.

Sua esposa, que não sabia desse trauma, o abraçou prometendo lhe dar de presente um ‘GI Joe’. Quando ela souber que isso custa mais de 300 reais vai mudar de ideia.

Voltando a catarse ‘Barbie’, de início achei ridícula, no entanto, refleti um pouco e é normal esse ‘hype’, seja pelo saudosismo, seja pelo modismo, seja porque nos infantilizamos.

No cinema, a última vez que passei por isso foi em “Homem Aranha: Sem Volta pra Casa” (2021). Comprei o ingresso com antecedência de 30 dias e, com medo de ‘spoilers’ fiquei fora da internet dois dias antes da estreia.

A essa altura do campeonato, todos devem saber que aparecem três Homens-Aranhas no filme. Pois bem, quando Andrew Garfield e Tobey Maguire entraram em cena, todo cinema vibrou.

Em uma cena, Garfield salva MJ, interpretada por Zendaya, e um casal sentado ao lado chorou copiosamente dizendo que ‘dessa vez ele conseguiu’. O contexto é que em filme anterior, o Homem Aranha de Garfield perdeu sua namorada em circunstâncias parecidas.

Foi genial como o roteiro jogou com nossas emoções. Eu saí do cinema com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto.

Não foi fato inédito, já caí em prantos em outros filmes. No maior drama romântico a que já assisti, ‘Em Algum Lugar do Passado’ (1980), Christopher Reeve e Jane Seymour (que mulher linda, meu Deus!) vivem um amor que o tempo tornou impossível. A música tema amolece o coração do mais bruto viking.

O filme ‘Manchester à Beira Mar’ (2016), um drama psicológico, revela uma tragédia terrível vivida pelos personagens interpretados por Casey Affleck (vencedor do Oscar) e Michelle Williams (indicada ao Oscar). Em certo momento do filme, eles têm um diálogo de perdão que toca no fundo da alma.

Filmes não provocam somente emoções que levam ao choro, mas também boas gargalhadas. O filme ‘Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu!’ (1980) não fica mais que 30 segundos sem soltar uma piada, e absolutamente todas me arrancam um riso.

Enfim, ao contrário do meu amigo, fui ao cinema ver ‘Missão: Impossível 7”. Não contei para ninguém e vou confessar aqui: fui fantasiado de Ethan Hunt.

Os leitores dessa coluna devem ter achado ridículo um careca, gordo e de óculos se fantasiar assim. Ora, meus caros, se um homem pintou a barba de rosa e se sentiu a Barbie, por que eu não posso me achar o Tom Cruise?

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

Um Comentário

  1. Assisti ao filme da Margot Robbie – Barbie, e foi maravilhosamente realizado. Não ataca nem defende nada. Trata de duas crises existenciais – Barbie e Ken -, e superadas suas angústias vão buscar seuas realizações pessoais. Deve ter sido surpresa geral para todos que foram de rosa…

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