A esquerda no país das maravilhas

Lewis Carroll, em 1865, lançou a obra Alice no País das Maravilhas, que foi um sucesso mundial. Tanto que até hoje é considerado um clássico da literatura “nonsense”. Carroll, inicialmente, contava essas histórias fantásticas para a filha do reitor da Universidade de Oxford, onde ele trabalhava e morava. A menina se chamava Alice Liddell; ele era uma espécie de tutor dela e de suas irmãs. Só um parêntese: também tenho uma filha que se chama Alice, em homenagem à obra. A ideia do nome foi de sua irmã mais velha, que, ao ver uma peça de teatro que contava a história, chegou em casa e pediu para colocar esse nome na irmã. Aceitamos, e, assim como a Alice de Carroll, a minha é bem astuta e curiosa.
Deixando as crianças carinhosamente de lado, é importante analisarmos as metáforas e os contextos. Lewis Carroll viveu na Era Vitoriana inglesa (1871- 1901), um momento de grande crescimento econômico na Inglaterra, que produzia riquezas nunca antes vistas para a burguesia, mas, por outro lado, gerava pobreza na mesma intensidade para a classe trabalhadora, além de destruir civilizações e culturas inteiras na África e na Ásia.
Uma fotografia disso era a situação da classe operária inglesa nesse período. As condições de vida eram desumanas, com jornadas de trabalho de 12 horas, bairros insalubres e, em certas regiões, a expectativa de vida era menor do que a de indivíduos escravizados em séculos anteriores. Ao passo que os prédios, palácios e as casas da burguesia e da aristocracia cresciam com a revolução sanitária e industrial, a vida da classe trabalhadora piorava.
Essa sociedade de extremos e absurdos foi retratada por teóricos socialistas como Marx e Engels. O primeiro analisou o capital, e o segundo, a situação da classe operária inglesa. O liberalismo de David Ricardo e Adam Smith era a bíblia da Era Vitoriana, pregando uma suposta “liberdade econômica” que, na verdade, significava a liberdade irrestrita da burguesia de exploração sobre a classe trabalhadora e toda a sociedade inglesa, além de várias partes
do globo. O liberalismo, em última instância, criou a maior e mais intensa desigualdade social da história.
Essa conjuntura influenciou e justificou uma literatura hiperbolizada, de extremos e absurdos. Desta forma, o fantástico se transformou em uma crítica poderosa na escrita de Lewis Carroll, que, incentivado pela própria Alice Liddell, resolveu colocar no papel e publicar suas histórias.
Em resumo, Alice no País das Maravilhas é uma história sobre uma garotinha que, sem a tutela dos pais, foi capaz de tomar decisões complexas no meio de personagens satíricos que faziam referências claras e diretas a uma sociedade em que a grande maioria vivia na pobreza, enquanto exaltava-se o luxo e a ostentação das classes dominantes.
A força dessa obra se demonstra quando usamos seu título para referenciar alguém que vive em uma distopia, algo imaginado e fantasiado. A questão que se coloca neste momento é: qual distopia a esquerda vive? Acompanhei diversas análises sobre o resultado eleitoral, e existem setores, principalmente daqueles que têm algum cargo eletivo, que vendem uma ideia de que está tudo bem, que houve crescimento.
Aqui em Franca temos um exemplo clássico. Rafael Bruxelas, secretário- executivo do Conselho da Federação da Presidência da República, publicou um post em suas redes sociais parabenizando os “candidatos da esquerda” — aliás, ele esqueceu de dois —, dizendo que a esquerda em Franca avançou.
Primeiro, ele considerou os votos do Ubiali como sendo do campo progressista. Vale lembrar que os votos do Ubiali foram mais em função de seu padrinho oculto, Gilson de Souza, que tem uma base de 6% dos votos, e ele nunca foi do campo progressista. Segundo, além de não levar em conta o rebaixamento do programa do mais votado, o deputado Cortez — que, diga-se de passagem, reduziu o programa do PSOL ao nível da palavra “Eu”, em uma espécie de síndrome de Luís XIV. Em resumo, historicamente, a esquerda em Franca sempre teve cerca de 25 mil votos sem fazer campanha, e as somas de Cortez, Mariana, Tito e João Scarpanti chegam a essa monta. Ou seja, crescemos onde?
Mas o esforço imaginário de Bruxelas encontra incentivo e respaldo na cúpula petista de Brasília. O desempenho do PT nacionalmente falando é baixo, mas, por exemplo, para o Padilha — aliás, padrinho político do secretário — saltar algumas prefeituras, mesmo que elas representem pouco no cenário político nacional, é considerado crescimento. Só a título de exemplo: em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, a esquerda, por enquanto, comandará apenas três prefeituras, que somadas não alcançam 20 mil votos! Se Boulos não levar a capital, a esquerda praticamente terá sido varrida do mapa em São Paulo.
Por outro lado, os partidos de extrema-direita e direita obtiveram números impressionantes nesta campanha. Todos, sem exceção, cresceram acima de 30%, mas o destaque é o PL, o principal partido da extrema-direita, que teve um salto de 236,2%, passando de pouco mais de 4,7 milhões de votos em 2020 para 15,7 milhões em 2024.
A esquerda, após a Constituição de 1988, rebaixou seu programa e se construiu em torno da figura de Lula. Esse cenário ganhou muita força com as vitórias eleitorais no começo dos anos 2000 e, agora, para derrotar o bolsonarismo. De todo modo, essa distopia sebastiana e messiânica nos custará muito caro. O maior partido do campo popular impediu e dificultou a construção de alternativas, distanciando a política das bases em nome da governabilidade.
O resultado foi um vazio de poder que foi, pouco a pouco, sendo ocupado por lideranças retrógradas da sociedade, em grande maioria figuras abjetas, que misturam religião e crime organizado. Esse fenômeno ficou aparente com os movimentos de 2013 e 2016, que culminaram inclusive no golpe parlamentar contra a presidente eleita Dilma Rousseff, que morreu abraçada com a política de conciliação.
A política de conciliação teve sua validade pós-1988; contudo, na medida em que a extrema-direita foi ocupando o espaço deixado pela esquerda nas comunidades e passou a pregar o rompimento da legalidade e um discurso antissistema, essa política perdeu sua validade e efetividade.
Assim como nos tempos de Lewis Carroll, vivemos um momento de hegemonia neoliberal e de uma sociedade disposta a festejar uma elite ostentadora que vive de luxo parasitário. Basta olhar as redes sociais para
perceber a semelhança, guardadas as devidas proporções, com o período vitoriano. Vivemos numa sociedade tão absurda que foi justamente a esquerda que promoveu a desarticulação do mercado de trabalho e possibilitou o avanço da ideia de “empreendedorismo”, que é um dos pilares do neoliberalismo.
Alice no País das Maravilhas não é um livro moralista, como João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho; não há uma lição de moral ao final. É um livro de crítica refinada, apesar de parecer infantil, a uma sociedade perigosa e despolitizada, de cegueira generalizada. Assim como Alice, a esquerda sempre foi astuta, questionadora e curiosa, mas o romance da esquerda é a política, e o autor desse romance são as pessoas que, no atual sistema, expressam suas opiniões nas urnas. Lewis Carroll deixou um recado muito claro por meio de sua personagem: é necessário acordar para enxergar a realidade, e as urnas estão dando exatamente o mesmo recado.
Carlos Machado é professor de história, militante e secretário político do PCB-Franca.









Muito boa a analise!
Excelente reflexão!
Parabéns por tão brilhante comparação à obra ao nosso momento atual!
Pena que nossa sociedade ainda não acordou para essa realidade.