Diálogos Sustentáveis

Saneamento básico: uma guerra pouco midiática!

Para quem costuma acompanhar notícias relevantes – nos veículos da chamada grande mídia ou não – as manchetes, as chamadas e as discussões a respeito das calamidades de guerras em andamento no mundo são um verdadeiro bombardeio (com o perdão da palavra).

As imagens de uma guerra nossa, a do estado paralelo comandado por organizações criminosas detentoras de espaços do território nacional, também são cotidianas. Um descalabro.

Narrativas horripilantes de vidas perdidas, de feridos no corpo e na alma, de destruição, estamos acostumados a ver e a ouvir todos os dias. E precisam, mesmo, ser escancaradas.

As reações dos apresentadores e debatedores nos canais de televisão demonstram consternação.

Mas há uma guerra, que deveria envergonhar governantes, que parece não afetar muito a sensibilidade dos costumeiramente presentes na mídia, possivelmente por não serem atingidos por ela.

Essa guerra tem perdurado por décadas, ceifado muitas vidas, adoecido imenso contingente de pessoas, mas ocupa muito menor espaço nos meios de comunicação.

Essa guerra que mata, que destrói futuros, é a da vergonhosa ausência de saneamento adequado para todos os que aqui vivem.

Segundo o Instituto Trata Brasil (https://tratabrasil.org.br/, 27/03/2025), há mais de 32 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e cerca de 90 milhões sem coleta de esgoto (e nem se fale da ausência de seu tratamento, consequente degradação ambiental e seus efeitos). Em relação à água, isto corresponde às populações de Portugal, Suécia e Bélgica, somadas; quanto à coleta de esgoto, podem ser acrescentadas as populações da França ou Itália. E ainda há os resíduos sólidos (lixo), com cerca de 3.000 lixões ativos no país, a drenagem urbana e os desastres dos alagamentos.

Somente em 2023, o Brasil registrou 11.544 óbitos por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado, e, em 2024, 344 mil internações no país por essas doenças, 43,5% dos casos em crianças de 0 a 4 anos e idosos (https://tratabrasil.org.br/, 27/03/2025).

Fico me perguntando: quanto espaço na mídia tiveram essas 11,5 mil mortes e as 344 mil internações e suas consequências, e isto no período de um só ano? Em décadas, quantas milhares ou milhões de vidas foram perdidas ou acometidas de doenças perfeitamente evitáveis?

Gostaria muito de conhecer a quantidade de minutos dedicados pela mídia, para cada morte ou lesionados nessas diversas guerras. Tenho a impressão de que o saneamento não estaria no pódio.

Na pandemia de COVID-19, uma tragédia, e muito espaço foi dedicado aos fatos como não poderia deixar de ser. Mas, e a tragédia da ausência de saneamento?

Nossos comunicadores, com razão, cobram e demonstram indignação com presidentes, primeiros-ministros e que tais pelas atrocidades das guerras armadas. Por que razão não cobram massivamente nossos prefeitos, governadores, presidentes, vereadores, deputados, senadores e agentes do judiciário sobre a ausência de saneamento adequado, o que implica em tantas mortes e doenças?

E não me digam os que governam que aqui faltam conhecimento, leis ou dinheiro (arenas luxuosas e que tais são mais importantes que saneamento?) para o saneamento. Há localidades no país que parecem ainda na Idade Média em termos de saneamento.

Se esse tipo de matéria não dá tanta audiência como nos conflitos armados, pergunto: mas a mídia, particularmente a chamada grande, também não tem um papel ou finalidade pública? 11.000 mortes são menos notícia ou menos relevantes que uma, por atropelamento por exemplo, que envolva alguém mais noticiável?

Para quem convive com o setor de saneamento por bastante tempo, entre os colegas e amigos uma sensação que fica é a de que falamos para nós mesmos, o que é no mínimo, frustrante.

É preciso gritar sobre essa guerra e por essas mortes, para que muito mais pessoas ouçam.

Eng. João Baptista Comparini, vice-reitor do Uni-Facef

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