Diálogos Sustentáveis

Cafeicultura sustentável: como a ciência brasileira está reduzindo o impacto ambiental no campo

Por Profa. Dra. Alessandra Marieli Vacari, Samarah Gomes de Almeida, Pedro Sandoval dos Santos Ribeiro Cavallari e Isabela Andrade Costa*

O café faz parte da identidade do Brasil. Presente na economia, na cultura e no cotidiano de milhões de pessoas, o país ocupa há décadas a posição de maior produtor e exportador mundial do grão. No entanto, manter altas produtividades diante do avanço das pragas, das mudanças climáticas e das exigências ambientais tornou-se um dos maiores desafios da cafeicultura moderna.

Durante muitos anos, o controle de pragas foi baseado principalmente no uso intensivo de inseticidas químicos. Embora eficientes em diversas situações, aplicações frequentes podem gerar impactos ambientais, favorecer a seleção de populações resistentes e reduzir a biodiversidade presente nos agroecossistemas. Em algumas regiões produtoras, o manejo do bicho-mineiro-do-cafeeiro (Leucoptera coffeella), uma das principais pragas da cultura, chegou a demandar inúmeras pulverizações ao longo do ano.

Nesse cenário, a ciência brasileira vem desempenhando um papel fundamental na construção de alternativas mais sustentáveis para o campo. Pesquisas desenvolvidas em universidades e centros de pesquisa têm mostrado que é possível produzir café com menor impacto ambiental, conciliando produtividade, sustentabilidade e conservação da biodiversidade.

Uma dessas estratégias é o controle biológico, baseado no uso de inimigos naturais das pragas agrícolas. Entre eles, destacam-se os crisopídeos, popularmente conhecidos como “bichos-lixeiros” ou “lacewings”, predadores naturais capazes de consumir ovos, larvas e outros pequenos insetos presentes nos cafezais. Estudos recentes conduzidos pela equipe da Profa. Dra. Alessandra Marieli Vacari da Universidade de Franca, demonstraram o potencial de Chrysoperla externa no controle de pragas importantes da agricultura, incluindo o bicho-mineiro-do-cafeeiro e ácaros fitófagos.

Além do controle biológico, outra linha promissora da equipe da professora envolve o uso de inseticidas botânicos produzidos a partir de extratos vegetais. Diferentemente de muitos produtos sintéticos convencionais, esses compostos apresentam rápida degradação no ambiente e menor impacto sobre organismos benéficos. Pesquisas brasileiras têm avaliado óleos essenciais, extratos vegetais e compostos naturais no manejo sustentável de pragas agrícolas, com resultados bastante promissores para a cafeicultura.

Pesquisas conduzidas pela equipe também demonstraram que extratos obtidos de espécies vegetais brasileiras, como Tithonia diversifolia e Handroanthus impetiginosus, também vêm demonstrando atividade inseticida relevante contra importantes pragas agrícolas. Esses avanços reforçam o enorme potencial da biodiversidade brasileira como fonte de inovação para uma agricultura mais sustentável.

Mais do que substituir produtos químicos, a proposta atual da equipe de pesquisa científica coordenada pela professora é promover o equilíbrio ecológico nos sistemas de produção. O Manejo Integrado de Pragas (MIP), por exemplo, busca integrar diferentes estratégias de controle — biológico, cultural, comportamental e químico — utilizando inseticidas apenas quando realmente necessários. Isso reduz custos, preserva inimigos naturais e contribui para sistemas agrícolas mais resilientes.

A sustentabilidade no campo também está diretamente relacionada à preservação da biodiversidade. Ambientes agrícolas equilibrados tendem a apresentar maior presença de organismos benéficos, capazes de auxiliar naturalmente no controle das pragas. Dessa forma, conservar a biodiversidade deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a representar também uma estratégia produtiva e econômica.

O futuro da cafeicultura brasileira depende cada vez mais da integração entre ciência, inovação e sustentabilidade. O desenvolvimento de bioinsumos, o avanço do controle biológico e a valorização de práticas agrícolas mais equilibradas demonstram que é possível produzir alimentos em larga escala reduzindo os impactos ambientais.

Nesse contexto, a ciência brasileira assume um papel estratégico não apenas na geração de conhecimento, mas também na construção de soluções concretas para o produtor rural. Mais do que combater pragas, a nova agricultura busca restaurar o equilíbrio dos agroecossistemas, fortalecer a sustentabilidade da produção e garantir que o café brasileiro continue sendo referência mundial — não apenas pela qualidade, mas também pela responsabilidade ambiental.

Os autores:

*Profa. Dra. Alessandra Marieli Vacari - Entomologista, Docente e pesquisadora nos Programas de Pós-graduação em Ciência Animal e Ciências, além de docente do curso de graduação em Engenharia Agronômica da Universidade de Franca. 
E-mail: [email protected]
Instagram: @professora_marieli
Samarah Gomes de Almeida  - Bióloga, doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Promoção de Saúde da Universidade de Franca.                                                                                                                                    E-mail: [email protected]                                                                                                                    Instagram: @samarahgomes33 
Pedro Sandoval dos Santos Ribeiro Cavallari - Biólogo, doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Universidade de Franca.                                                                                                                           E-mail: [email protected]                                                                                                      Instagram: @me.pedrosandoval 
Isabela Andrade Costa - Engenheira Agrônoma, mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca.                                                                                                                               E-mail: [email protected]                                                                                                           Instagram: @bela.andrad_ 

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