Construção civil: o alicerce dos sonhos e, por que não, do trabalho e da educação também?
Por Vívian Karina Bianchini, Carlos do Amaral Razzino e Glauco Fabrício Bianchini
Quando se pergunta qual é o maior sonho dos brasileiros, a resposta é quase unânime: a casa própria. Segundo pesquisa do Datafolha (2025)*, 93% dos brasileiros, que vivem de aluguel ou em imóvel cedido, sonham em conquistar um lar para chamar de seu. Esse desejo, contudo, vai muito além da posse material de um imóvel, ele reflete a busca humana por segurança, estabilidade e pertencimento.
Sob a ótica da Pirâmide das Necessidades de Maslow** (1943), o sonho da casa própria está relacionado aos níveis fundamentais: primeiro, atende à necessidade fisiológica de abrigo e proteção; em seguida, à necessidade de segurança, garantindo um espaço estável e previsível; e, por fim, contribui para o sentimento de pertencimento e estima, ao permitir que o indivíduo construa sua identidade, fortaleça vínculos familiares e se sinta parte de uma comunidade.
Por trás de cada casa, escola ou hospital erguidos em nossas cidades, há uma rede de homens e mulheres que moldam com as próprias mãos o cenário do nosso cotidiano. A construção civil é, há décadas, um dos pilares da economia de Franca e do Brasil, gerando milhares de empregos diretos e indiretos e movimentando diversos setores, dos materiais básicos à busca por novas tecnológicas.
Apesar da importância econômica e social do setor, a construção civil enfrenta um dos seus maiores desafios: a carência de mão de obra qualificada. Em muitas regiões do país, faltam trabalhadores capacitados para atender à crescente demanda por edificações sustentáveis, seguras e tecnologicamente avançadas. Essa lacuna reflete não apenas a ausência de formação técnica, mas também a necessidade urgente de programas de capacitação contínua, que valorizem o trabalhador e promovam sua ascensão profissional.
Construir também exige cuidado! É preciso lembrar que esse setor, tão essencial, é também um dos mais insalubres e que mais registram acidentes de trabalho no país. Valorizar o trabalhador da construção civil é garantir que ele volte para casa com saúde e segurança. É investir em condições dignas, capacitação profissional e reconhecimento.
A qualificação da mão de obra transforma o ofício em carreira, o trabalho braçal em profissão. E é nesse ponto que a educação se torna o cimento mais forte dessa estrutura social. Cada curso técnico, cada oficina, cada oportunidade de aprendizado abre novas portas e ajuda a romper o ciclo de vulnerabilidade que ainda atinge tantos trabalhadores do setor.
Zé Geraldo (1979) e Zé Ramalho (1992) imortalizaram, na canção “Cidadão”, a voz desse trabalhador invisível:
“Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá.
Lá eu quase me arrebento,
Fiz a massa, pus cimento,
Ajudei a rebocar.
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente:
‘Pai, vou me matricular.’
Mas me diz um cidadão:
‘Criança de pé no chão,
Aqui não pode estudar.’”
(Gravação original Zé Geraldo (1979), Regravação Zé Ramalho (1992), “Cidadão”, composição de Lúcio Barbosa, 1970.)
Esse trecho ecoa ainda hoje, lembrando que quem ergue as estruturas do país também tem o direito de sonhar e de ver seus filhos estudarem em escolas que ele próprio ajudou a construir.
A cadeia produtiva local da construção civil de Franca, que integra empresas, universidades e instituições públicas, consolida-se justamente com esse propósito: gerar inovação, emprego e oportunidades, mas também dignificar o trabalhador e valorizar a educação como base do desenvolvimento.
Construir é muito mais do que levantar paredes. É erguer futuros. E todo futuro sólido começa com um bom alicerce, de trabalho, de conhecimento e de respeito.
Vívian Karina Bianchini – entusiasta dos vários setores industriais que compõem as cadeias de suprimentos. Engenheira de Produção e docente da UNESP – FEB;
Carlos do Amaral Razzino – entusiasta dos novos materiais e suas inovações na sociedade. Engenheiro de Materiais e docente da UNESP-FEB
Glauco Fabrício Bianchini – entusiasta das grandes estruturas e obras de engenharia. Engenheiro Civil e docente da UFMT.
*DATAFOLHA. 43% dos brasileiros têm planos de comprar um imóvel residencial. São Paulo: Instituto Datafolha, 4 fev. 2025. Disponível em: https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniao-e-sociedade/2025/02/43-dos-brasileiros-tem-planos-de-comprar-um-imovel-residencial.shtml. Acesso em: 21 out. 2025.
** MASLOW, Abraham Harold. A theory of human motivation. Psychological Review, Washington, v. 50, n. 4, p. 370–396, 1943. DOI: 10.1037/h0054346








