Opiniões

Sextas-feiras e Saracuras

Sexta-feira é o dia mais esperado da semana, poderíamos afirmar com certeza, nos tempos atuais. Autêntica obviedade, lembrar isso em um artigo, poderia alguém observar. Mas talvez não seja para quem leia o texto daqui a algumas décadas, quando todos os dias da semana serão iguais e o trabalho diuturno uma opção na vida das pessoas…

Os historiadores, possivelmente os leitores de textos de então, saberão que houve certa graça nas sextas-feiras, por serem elas o último dia de trabalho da semana. Um dia especial, em que até o trânsito se modificava nas cidades. Será um tempo em que os recursos materiais estarão à disposição de todos, providos pela tecnologia, e o lazer a maior ocupação das massas.

Fato é que uma sexta-feira comum se iniciou com a agitação que tem caracterizado esses dias no início do século XXI. Não eram seis e meia ainda e um barulho de marretadas de construção civil ecoava nas vizinhanças. Como podia ser, ainda estava escuro? Mas era barulho de construção civil sim senhor! Enquanto aquecia a água para passar o café, resolvi dar uma espiada pela grade da frente da casa. E vi que um operário que está reestruturando a fachada de um abrigo de idosos de perto de casa resolvera começar mais cedo. Fincava uma estaca de aço na calçada a marretadas! Naturalmente pretendia parar mais cedo para aproveitar melhor a sua sexta-feira!

Devo confessar, a bem da verdade, que não acordei mais cedo por causa do barulho, nem porque era sexta-feira. Os que nasceram dos anos 1970 pra trás sabem que acordar cedo é um fenômeno natural, que vai se incorporando na rotina com o tempo. No caso, havia algo inusitado: eu acordara antes das quatro, com o canto de uma saracura!

Explico: por causa de um condomínio residencial que vem sendo construído nas margens de um córrego próximo de casa, uma saracura três-potes mudou-se para o nosso quintal, uma área de pouco mais de cem metros quadrados, que conta com algumas árvores e vasos de plantas!

Apolo, foi o nome dado à ave pela minha esposa. Deduzimos tratar-se de um macho por causa da plumagem colorida. E nos acostumamos a ouvir o seu canto todos os dias antes das seis da manhã. Mas, desde quinta-feira à tarde andávamos preocupados porque, vimos Apolo saltando sobre os telhados vizinhos, em razão de movimentos que fizemos no quintal. Por isso, o seu canto fora de hora na sexta-feira nos acordou mais cedo, mas trouxe conforto, alívio e paz à consciência. Pura coincidência a saracura acordar mais cedo sexta-feira, claro!

Na verdade, a história que levou a saracura a se mudar para o quintal de casa foi muito mais uma conclusão lógica do que fato comprovado. Até alguns meses atrás havia uma grande área coberta de vegetação residual de brejo, pastos e até coqueiros macaúba, de um dos lados da Avenida Hélio Palermo. Vez ou outra viam-se cavalos pastando e algumas aves passeavam por ali. Sob a vegetação rala havia pequenos olhos d’água, praticamente invisíveis, na parte baixa do terreno, que se juntavam e iam completar o modesto volume do velho Córrego dos Bagres. Era o último resquício de brejo que ainda resistia por ali.

Mas, numa manhã, alguns meses atrás, estacas de madeira foram vistas no terreno. Nos dias seguintes, máquinas de terraplanagem removeram o relvado, as moitas, os arbustos, e o transformaram em terra nua, marrom, poeirenta. Surgiram ruas, muros e, por fim, veio a canalização do pequeno curso d’água, sepultado em tubos de concreto. E apareceu lá em casa a saracura, meio assustada no início, mas que já circula com alguma desenvoltura pelo quintal!

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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