Se escrevo

Se escrevo, não é para dar à dor mais potência, mas para, com as palavras, domesticar a dor, fazê-la comportar-se nas linhas, encaixotadas dentro de frases, fechadas num caderno ou livro. Mas porque a dor é rebelde e indômita, dominá-la requer um arsenal de artimanhas e artifícios, soterrando-a no fundo com aquilo que se admira no raso.
E foi assim que até aqui procedi. Se havia dor em minhas letras, eram criadas, e bem-criadas, ou então índices, meros e distantes índices de um sofrimento muito próximo, tão próximo, como agora, que se torna evidente que se até então ergui a caneta, era de escudo, e se torna prudente, hoje, empunhá-la na ofensiva, não mais para resistir pôr a dor em palavras, mas sim para pôr as palavras em dor.
É preciso que essa crônica doa. Em mim, à princípio, em nós no fim e durante. É preciso que seja doloroso para para que seja sincero — eu, que tenho tanta alergia à sinceridade, ela que sempre começa por um ‘sim’, e nunca um sim simples.
Todo resto terá sido distração, terá sido eu contra mim mesmo procurando subterfúgios seguros, a perder-me na beleza fácil das letras para evitar me perder (com mais desespero e vertigem) na feiúra ou beleza difícil da dor.
E se é para ser assim, é bom que chegue logo o assunto.
Só que o assunto custa apresentar-se. Trava. Seja por vergonha minha, medo meu, seja porque é ridículo, o assunto, essa dor indomável ou tímida. A vergonha vem, tinge o medo de rubro, e o medo o ridículo de preto. E a dor, rubro-negra, olha só, indica bem o assunto: vermelho como o coração e preto como o coração carbonizado, que é como o meu se encontra.
Não foi culpa de um, culpa de outro, mas culpa compartilhada. E não é sempre assim? Ou será uma conta rachada igual mas iniquamente, como também sempre é? Ou será que a culpa é toda de um, como é sempre e também?
Mas só posso falar por mim. Não é que eu era avesso a acabar, é que sou avesso a tudo que começa depois que termina. Avesso aos choros que incham os sacos dos olhos, à carga das costas até quando se as descasa. Avesso ao processo violento que é desparir da pessoa um afeto que se pensou interminavelmente entregue à luz.
É também que esse processo se repete em miniaturas dolorosas. Acaba-se uma vez diversas vezes quando tem que se contar para o P, o J, o F, e o resto do alfabeto que então, poxa vida, fazer o quê, terminou.
A vontade é só deixar que se toquem, que saibam sem saber e isso aí. Que também é como acontecia entre nós: isso aí, silencioso, mas dentro retumbando.
Isso aí. Isso aí. Isso aí. Que é pra dizer: texto, texto, texto, alguma coisa etc.
É que não consigo mesmo dar o sim do sincero. Quem sabe numa outra, num outro acabar? Porque terá outro, ainda que seja o mesmo.
E não é sempre o mesmo?



