Opiniões

Professores e o Estado

Quem é professor sempre escutou a famigerada frase: só da aula, ou trabalha também? Infelizmente, temos a cultura da desvalorização do profissional da educação, e quem trabalha nesta área sabe que somos professores e educadores o tempo inteiro. Muitas vezes até mesmo o nosso lazer é para nos qualificarmos para a sala de aula. Ou seja, a vida de todo professor é a educação.

A desvalorização da nossa profissão não é nova, desde que esta surgiu de forma oficial no país, nem sequer somos tratados como trabalhadores. Ou quando somos, nos veem como trabalhadores de segunda categoria. Apesar de cuidarmos da educação de todos e de conviver cotidianamente com a maioria da população durante boa parte da vida dela, somos tratados com desconfiança e precisamos o tempo todo “provar” que estamos elaborando, estudando, e nos preparando.

Quando existe mudança de governo, mesmo que seja do mesmo partido ou a mesma tendência política, somos os primeiros a sofrer com as mudanças na carreira, no currículo ou na burocracia escolar. Ficamos com o fardo do fracasso escolar, em uma sociedade que não possui as condições mínimas de sobrevivência garantida, onde muitos não conseguem sequer fazer 3 refeições mínimas diárias. É triste, mas nesse contexto, muitos dos nossos alunos vão à escola para comer, e muitas vezes, esta será a única refeição do dia!

Mesmo com esse cenário de desqualificação, desvalorização e ataques a nossa profissão, vamos à escola, muitas vezes doentes, para tentar realizar nosso trabalho. A sobrecarga de trabalho nos deixa debilitados, solitários e deprimidos. Tipicamente sintomas correlacionados à relacionamentos abusivos.


Dias atrás, escrevi um artigo, aqui mesmo, falando sobre o sucesso da educação no mundo e coloquei que as 8 melhores posições deste ranking. Nestas posições, os alunos e professores mal ficam em sala de aula. Aqui, temos uma política de encarceramento. Alunos ficam no mínimo 5 horas e 35 minutos em escola regular, e 10 horas em ensino integral, sendo que há professores entrando às 7 da manhã na escola e saindo às 23 horas!

Por uma questão lógica, não há de fato qualidade na educação e esse fator interfere diretamente na formação da sociedade e no desenvolvimento do país. Povo que não tem educação sólida em sua base, nas sociedades modernas, não conseguem superar uma situação de subdesenvolvimento e não garantem um bem-estar geral.

Neste sentido, para garantir um desenvolvimento adequado a chave está na valorização do professor. Profissionais bem remunerados, com estrutura adequada, com concepção de educação moderna e libertadora são o norte se queremos um país melhor.

Contudo, o Estado de São Paulo vai na contramão dessa lógica. Nos últimos anos, perdemos vários direitos, uns inclusive absurdos. Tínhamos direito de 6 faltas abonadas, não era e nunca foi bondade de ninguém. Isso ocorre por conta de que há 6 meses no ano em que o mês tem 31 dias, e nós somos remunerados por 30, assim esse 6 dias que não somos pagos, tornavam-se falta “abonada”. Agora continuamos recebendo por 30 e esses 6 dias estamos trabalhando literalmente de graça.

Toda categoria de trabalhadores do Brasil é assegurada com1 hora de almoço quando se trabalha 8 horas diárias. Nós, temos 20 min de almoço e quando muito, diretores exigem que é para estarmos 5 minutos antes do horário, disponíveis para recepcionar os alunos. Detalhe: as escolas não tem cozinhas, banheiros suficientes e locais adequados para os professores poderem almoçar, estamos literalmente engolindo a comida em pé nos corredores.

Para completar, esse ano ainda será implementado um Sistema de Monitoramento Eletrônico para acompanhar em tempo real se estamos ou não aplicando o conteúdo. O Governo do Estado precisa definir se quer carcereiros ou professores. Se os filhos dos trabalhadores merecem ser educados, ou apenas “disciplinados”, para o trabalho extenuante que a elite oferece.

No dia 22 os professores estão chamando para a paralização. A situação é tão dramática, que não é nem pela melhoria salarial, ou pela concepção da educação ou por qualquer questão avançada referente ao trabalho. A paralização, infelizmente, é por dignidade! 

Carlos Machado

É Professor Historiador e Militante do PCB.

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