Opiniões

Pensando no Futuro

Uma das principais características da sociedade humana é a evolução constante. Uma marca específica dos tempos atuais é a velocidade dessa evolução. Não é fácil estabelecer com precisão o grau de evolução tecnológica atual, porque não é possível reunir, em um momento dado, as principais invenções do último ano, do último mês, ou mesmo de ontem… A evolução moral, ou comportamental, no entanto, se processa a passos mais lentos do que a tecnológica. Mas, a humanidade tem dado passos também nesse campo, muitas vezes interrompidos por visíveis retrocessos. Mas tem caminhado nesse terreno.

Por exemplo, já não há quem defenda abertamente a escravidão de pessoas, como havia a pouco mais de cem anos, embora ela ainda persista em ambientes menos expostos… Tem-se discutido com seriedade o direito de igualdade entre pessoas, independentemente do gênero. O estado (de direito) já protege direitos das minorias. Engatinha a regulamentação dos direitos dos animais. Já se discute abertamente os interesses das gerações futuras, embora ainda prevaleça certa cultura egoística. Encorpa uma tendência de rever de fatos históricos, segundo uma visão considerada mais justa percebida no presente, apesar de todos os riscos que tal empreitada representa.

Mas, como estará a humanidade no ano 2122? Será que ainda habitará a Terra?

O que pensarão colunistas, jornalistas de daqui a cem anos sobre o comportamento humano atual?

Será que nos tomarão por inteligentes, ou nos como ineptos, retrógrados, ignorantes?

Haverá analistas de valores morais em 2122?

Para os cientistas atuais, se não houver uma mudança de comportamento radical na sociedade humana atual, para fazer cessar a emissão de carbono na atmosfera, nos próximos cem anos a temperatura do planeta poderá subir até oito graus Célsius, ampliando os desertos existentes e fazendo surgir outros. O nível dos oceanos subirá um metro, fazendo desaparecer centenas de ilhas com populações animais e vegetais inteiras, cidades costeiras, criando uma nova ordem de vítimas humanas: os refugiados ambientais.

A população da Terra será menor porque, segundo estudos recentes, a tendência é de que haverá crescimento até o ano 2050, quando então terá início o declínio dos nascimentos. Grande número de espécies animais e vegetais que existem hoje estarão extintas, em especial nos oceanos, que terão mais plástico do que peixes. A humanidade terá resolvido o problema da escassez de água, que terá o seu pico no meio da caminhada daqui para o ano 2122. Mas ao custo elevado da dessalinização das águas dos oceanos.

Como se pode perceber, a quem se arrisca a projetar a sociedade de algumas décadas adiante, parece bem mais fácil prever catástrofes. Talvez seja devido à tortuosa a caminhada da humanidade até aqui. Mas, ninguém arrisca previsões para um período maior do que poucas décadas!

Mas, o que pensarão de nós os eventuais humanos do ano 2122? Censurarão o nosso comportamento despreocupado com a sorte deles?

Reclamarão pela destruição do equilíbrio ambiental, da biodiversidade?

O que dirão das milhões de toneladas de carbono que lançamos na atmosfera, só para manter interesses econômicos de grupos poderosos atuais?

O que dirão sobre a destruição das florestas, da poluição dos rios, da utilização dos mares como depósitos de lixo?

Será que nos considerarão insensíveis por usarmos animais como alimento, quando a nossa indústria já pode resolver a situação de um modo bem menos cruel?

Ou será que nada disso importa a um mundo pragmático, comandado por inteligências artificiais, em que a tecnologia resolve todos os problemas e a sensibilidade não passa de um estorvo?

Não dá pra responder agora, mas vários indícios apontam nessa direção… Se for assim, o mundo de 2112 será mais sem graça e triste do que o atual! Por via das dúvidas, não custa muito pensar no assunto enquanto ainda podemos fazer alguma coisa, não é mesmo?

Ou será que, como no passado, também não conseguiremos interferir no futuro?

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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