Mas é carnaval….

Tomei emprestado a expressão de uma música de Chico Buarque: “Noite dos Mascarados”, de 1967. Nessa música, Chico faz uma brincadeira entre a linha tênue do que é verdadeiro ou falso por de trás das máscaras que usamos no carnaval e o que é vida real. Nosso carnaval, em certa medida, também é assim: uma festa de origem pagã em homenagem a Saturno e às divindades Infernais (Saturnália e Lupercália), que posteriormente foi apropriada pela igreja católica, sendo um período em que o “pecado era permitido” para posteriormente ocorrer a purificação da Páscoa. No Brasil, o carnaval foi “antropofagiado”, adicionando-se o samba, o frevo e o axé, transformando- se assim, na festa mais popular do Brasil e uma das mais populares do mundo.
No Brasil, a festa começou na elite com a chegada dos italianos, mas não demorou para que as classes populares se apropriassem da ideia de poder ter um período para pecar, e fossem pouco a pouco melhorando a folia. Esses poucos dias para pecar é como se fosse o momento de gritar por liberdade e adesão das classes populares iam aumentando ano após ano. Assim, além de pecar, a liberdade também passou a ser permitida nesse período, e nós, em tese, poderíamos ser quem realmente somos.
As fantasias passaram a ser cada vez mais ousadas, corpos nus deram lugar à bailes de máscaras e o samba ou o axé, substituíram as marchinhas que ficaram restritas a clubes frequentados apenas por burgueses. Surgiram as primeiras escolas de samba nos morros e as rodas de samba cariocas nas “moradias festivas das tias baianas na Praça Onze”, bairro carioca da região central que servia de espaço para a troca de temas que culminavam na criação dos sambas enredos.
Essa africanização do carnaval o deixou subversivo e o samba, em alguns estados e cidades passou a ser proibido. Em São Paulo por exemplo, os sambistas subiam no trem para tocar samba, pois era o único lugar em que não seriam presos. O Estado Novo de Getúlio Vargas, legalizou o carnaval e turbinou as escolas de sambas, onde a data passou a ser oficial. Esses desfiles que hoje conhecemos, é fruto desse processo de organização do carnaval. Antes, todos andavam e dançavam em torno da bateria com os sambistas emendando um samba enredo atrás do outro, não havia competição, apenas contemplação.
A elite brasileira foi muito astuta e com a institucionalização da festa, passou a controlá-la, e o carnaval praticamente não acontece se não houver financiamento
público. Em momentos de crise é ele, injustamente, o primeiro a ser sacrificado. Sem contar, que nos momentos em que o país esteve mais autoritário, até mesmo os sambas enredos passavam por censuras. Por outro lado, essa mesma elite que controla, ganha lucros exorbitantes nesse período de festa.
Antes o grito de liberdade agora é um momento de escape e de descontração. Desse modo, a elite conseguiu transformar o carnaval de algo singelo e legítimo à uma mercadoria altamente rentável e lucrativa. Mas sempre há aqueles que resistem, havendo grupos espalhados pelo Brasil que fazem um carnaval que não se amarra a institucionalidade e de forma subversiva apenas cantam, dançam, bebem e são felizes.
Assim como na música de Chico, é no carnaval que nossa elite mais veste a máscara e fingem estar como o povo, se divertido, mas na verdade estão em camarotes caríssimos observando de cima, assim como os senhores de escravos faziam de sua Casa-Grande, bebendo de seus alpendres e observando a festa nos terreiros.
Contudo, durante o restando do ano, ou na “manhã que tudo volta ao normal” eles são exatamente a música de outro genial: João Gilberto. Na música “Pra que discutir com madame”, há dois excerto que traduzem perfeitamente o que a elite brasileira pensa: “Madame diz que o samba é democrata/ É música barata/ Sem nenhum valor”. E ele continua exaltando o samba, dizendo que a madame tem veneno e ela diz que: “O samba brasileiro democrata/ Brasileiro na batata/ É que tem valor”. Ou seja, brasileiro bom é aquele trabalha, que sofre dia a dia e que mesmo em seu momento de liberdade, este seja controlado.
Essa liberdade controlada é a do consumo exagerado. No capitalismo tudo se transforma em mercadoria. Nesse sentido, ser livre é ter tudo, ou a possiblidade de ter tudo, ou também a possibilidade de poder ter de tudo, porém, como diz a canção: “mas é carnaval”. No samba e no carnaval nada é mais revolucionário do que retomarmos nossas raízes. A liberdade contida no samba raiz, não é cantada no sentido mais esdrúxulo da palavra que é do de tudo pode. O samba raiz é cantado da forma mais sincera e verdadeira possível, que é contra todo tipo de opressão. Esse sim, o verdadeiro sentido da palavra liberdade.








