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Falta de assunto e pra onde ela nos levar

A verdade é que estou sem assunto. Não que isso seja um problema: não é (já aprendi que não ter assunto, neste ofício, é o de menos: a gente faz da falta de assunto o próprio assunto: cozinha com o que tem na geladeira¹). Mas carecer do que falar tende a levar a alguns excessos estilísticos, como o de usar muitos parênteses, ora para encher linguíça fazer um aparte (comentário paralelo que não coaduna com o principal, vide o próximo parêntese), ora para encher mais linguíça fornecer um esclarecimento (vide o parêntese anterior, que renderia outro parêntese [ou talvez um colchete] para esclarecer o que é “coaduna”). De todo modo, o parêntese pode ser seguramente removido, sem nenhum prejuízo de sentido ao texto.

Compensar o vazio com o excesso é uma tática típica não só de quem escreve como também de quem existe. Não ter assunto (ou só ter a falta de assunto de assunto) é existir dentro de um parêntese: removível sem prejuízos. Assim eu me sinto sem assunto²: à distância de um dedo editor me deletar.

Ter assunto (magnânimo ou mesquinho, carta aberta ou conversinha) é ter o seu grau de importância na rede mundial dos discursos: é ter algo a contribuir (tão abstrato “ter algo a contribuir”). Já adianto: a contribuir eu não tenho nada (ou talvez eu tenha a “contribuir”, o que é diferente, porque as aspas me descomprometem [engraçado isso, de pôr as coisas nas aspas; assim ninguém se compromete com nada: tem gente que a vida é entre aspas]). Mas o pior de não ter assunto, de ser um parêntese na vida, de só poder “contribuir” mas não contribuir, é ficar, abre aspas, aferrado, fecha aspas, a esse caralho de falta de assunto, com a licença da impropriedade.

Pois a falta de assunto, sendo em si um assunto (um ready-made pro bate-papo), é um tema (dai graças aos Sinônimos!) que, na crônica, se espera ver desenvolvido, isto é, com rumo, crescendo, indo para algum lugar…

…e o lugar pra onde eu poderia ir, pra não perder a bola de ferro o fio da meada da falta de assunto, quiçá seria o de listar os prós e contras de se habitar os parênteses versus morar dentro das aspas, talvez introduzindo uma nuance, o colchete, ou ainda outra, a chave, para deslindar os muitos níveis em que, na expressão, podemos ser espremidos (redundantes, deletáveis). Urdindo isso, eu poderia então tecer uma metáfora estendida sobre os paralelos entre os sinais de pontuação e a vida, promovendo a vírgula, o ponto, os dois pontos, o ponto e vírgula, sem contar a exclamação, a interrogação, as reticências e o travessão como elementos figurados: todo o pelotão de sinaizinhos marchando e entoando um discurso congruente, com norte e nexo. Eu poderia enfim concluir este parágrafo com uma frase de efeito, um arremate aforístico que, de tão elegante e agudo, seria também afrodisíaco³.

Eu poderia, não fosse a preguiça (ou o medo de falhar).

A preguiça (e o medo de falhar) seria então um novo assunto, ou sub-assunto da falta de assunto, ou sub-sub-assunto da falta de assunto (já que o sub-assunto seria, pela sequência, a relação entre a vida e a pontuação).

(Falta de assunto → vida e pontuação → preguiça (ou medo de falhar): uma marcha curiosa ou comezinha?).

Daí eu seguiria falando, pra fechar, que “li Sigmund Freud” dizendo que a preguiça e o medo são a mesma coisa, o último travestindo-se da primeira pra se parecer menos sério (e mais inextirpável). Diria, em outras palavras (ou nestas mesmas), que a dupla Medo & Preguiça são faces de uma mesma (maldita) moeda, mantendo o ser humano aquém do seu potencial, e que o certo é jogar essa moeda no bueiro ou cambiar ela por alguma com apreço internacional (aqui eu arriscaria prosseguir com essa metáfora monetária até comparar o euro e o dólar com a eudaimonia e a ataraxia4, coisa que me pareceu despudorada, portanto censurei). Mas (toda essa história de condenar a preguiça e o medo e aconselhar a eudaimonia e a ataraxia) seria um desenlace psicologizante beirando a autoajuda, e eu tenho vergonha do que os meus amigos vão achar.

Portanto, isto posto, assim, então, afirmo: nein, nein, nein, nein, nein, nein, nein!5

Prefiro optar, sendo ousado e anticlimático (ou preguiçoso e medroso), por um “ai, ai” (aquele suspiro de resignação) antes de, “protegido pelas aspas” (e confinado num parênteses [e espremido num colchete {e constrangido numa chave (e sobretudo encolhido lá embaixo)}]), terminar essa crônica “assim“6.

1 Tanto é que depois de terminar aqui preciso fazer almoço, e na geladeira só tem ketchup e abacaxi.
2 Para quem ainda não captou a metáfora, segue o tutorial: troque “assunto” por “propósito”. Fim do tutorial.
3 Lembrando que toda demonstração de aptidão artística é, para a seleção natural, como a airosa cauda do pavão: tão somente um display de sexualidade.
4 Dá um google.
5 Fonte: Bastardos Inglórios. Tradução: não, não, não, não, não, não, não!
6 “Contribuindo” para a visibilidade das notas de rodapé.

Caetano Barsoteli

É escritor do Página 11

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