Escravidão e desregulamentação: a mentalidade da elite brasileira

O que acompanhamos no Rio Grande do Sul, vinícolas utilizando mão de obra em condições muito próximas à escravidão, infelizmente não é exceção. Quando trabalhamos com a ideia de excepcionalidade, queremos dizer que algo aconteceu e não está na normalidade. Neste caso, não podemos afirmar isso.
Historicamente, a elite brasileira sempre foi, na mentalidade e na prática, escravocrata. Fomos o último país a abolir a escravidão (1888), e a elite ficou tão enfurecida, que através de um golpe de Estado instituiu a República um ano mais tarde (1889).
No cotidiano, percebemos como se dão as relações de trabalho, e a maior parte das reclamações dos empresários sempre é justamente com o que ele chama de “custo” do trabalhador. E em seus mundos paradisíacos particulares, o trabalhador deveria trabalhar apenas para sobreviver.
Com a redemocratização do país e a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, que levou a cabo uma política neoliberal que atacava e desregulamentava o mercado de trabalho, os trabalhadores tem sofrido com a desvalorização das profissões, a precarização das condições e locais de trabalho, além da perca real do poder de compra, que, em alguns momentos até sofre alta, mas em seguida se desvaloriza.
Esse cenário de desregulamentação da classe trabalhadora, propicia e incentiva a elite brasileira a satisfazer sua mentalidade, que é a de menor remuneração possível com o máximo de produtividade. A terceirização e os aplicativos, elevaram essa condição de precarização ao extremo. Temos trabalhadores, principalmente motoristas e entregadores, trabalhando em torno de 14 horas diárias e recebendo o suficiente para as suas necessidades básicas.
No campo, onde o trabalho análogo a escravidão se torna mais evidente, a situação é ainda mais grave quando associado ao agronegócio. Nas plantações de cana de açúcar onde utiliza o corte manual, o valor pago por tonelada é irrisório. Assim, esse sistema de produtividade é desumano, fazendo que o trabalhador tenha que cortar uma quantidade absurdas para receber o suficiente para a sua moradia e sua alimentação. É o mesmo procedimento encontrado nas vinícolas do Rio Grande do Sul, onde trabalhava-se horas a fio, recebendo um valor irrisório para seu trabalho. No caso dos nordestinos, eram castigados fisicamente.
A elite junto com o neoliberalismo, trouxe a ideia de que o trabalhador se desregulamentando, conseguiria ganhar mais e assim melhorar sua condição de vida. A internet está cheia de “coach” vendendo a ideia de que o desespero é o início do empreendedorismo. Mas na verdade, vemos dia após dia um mercado informal crescendo exponencialmente, pois, com o medo do desemprego, o trabalhador se submete a qualquer condição para sobreviver.
O trabalho que deveria ser fonte de construção de riqueza coletiva, está a passos largos para se tornar um problema social grave. As vinícolas são apenas a ponta da ponta do iceberg. Se investigarmos adequadamente, veremos que quase toda a cadeia produtiva e de serviços brasileira, tem se servido da desregulamentação do trabalho para impor aos trabalhadores condições desumanas para que possam sobreviver.
A institucionalidade tem seus limites. Parte dessas grandes empresas do agronegócio, da indústria e dos serviços, são poderosas e tem relações íntimas com o Estado. Assim, a capacidade de fiscalização fica prejudicada, uma vez que, são essas empresas que financiam as campanhas políticas e tem no judiciário parentes ou agregados.
Neste sentido, nunca foi tão necessário a organização dos trabalhadores, seja em sindicatos, seja em associações, seja em movimentos sociais. A organização dos trabalhadores é a única capaz de reverter o quadro e fazer avançar os direitos, quebrando essa lógica escravocrata da elite brasileira.
A classe trabalhadora precisa assumir seu protagonismo para que a realidade seja de trabalho livre e que o trabalhador possa se apropriar de forma decente do fruto do seu trabalho. Trabalhar apenas para sobreviver, não é viver livre. O desespero para sobreviver é escravidão.









Esse desespero da sobrevivência e o tempo passando! Só a união trará transformação! Tema importante!
Famosa Elite do Atraso, Elite escravista que não quer se desenvolver e mantem a mentalidade do séc XVII