Inspirados

‘Us minino tão cum fome’

Hoje de manhãzinha encontrei na porta da padaria um amigo que não via há algum tempo. Mesmo com pouco tempo, falamos do trabalho (“está de ‘home office’ ou presencial?”), um pouco de futebol (“e a Libertadores, quem ganha?”) e de política (“tudo pilantra!”).

Ele segurava um saco de pães, pão de queijo, broa e uma rosca com açúcar.

Já estávamos uns vinte minutos conversando quando ele teve de atender ao celular. Era a esposa dele.
Ela é funcionária pública e sempre de dieta na eterna luta contra a balança. De poucas palavras, a mulher quando falava era com uma concordância gramatical impecável. Me lembro com bom humor uma vez que ela me perguntou em segunda pessoa: “Tu estás bem?”. Pego de surpresa, respondi “Estois”.

Continuando, ele colocou o telefone bem próximo ao ouvido, mas eu a ouvi do outro lado da linha:

“Onde cê tá?”

Ele tentou acalmá-la: “Tô aqui batendo um papo com o Michel”.

“Sabia que ocê tava com um desses seus amigos vagabundos. Vem imbora pra casa agora, eu i us minino tamo esperando os trem pra tomá café”. E desligou o telefone.

Dei um sorrisinho sem graça e perguntei se ele tinha trocado de esposa. O sotaque estava carregado.

“Não. É a mesma. Ela tem esse tique nervoso quando está brava comigo. Eu amo essa mulher. Ela salvou minha vida, amigo”. Disse um pouco emocionado. Fiquei curioso, e ele me contou:

“Você conhece o ‘Bar do Zezão’. É o melhor lugar do mundo, você sabe onde fica”.

E eu sei mesmo. Boteco de cachaça, cerveja gelada, tira gosto de qualidade duvidosa e uma mesa de sinuca perfeitamente nivelada. Coisa chique!

“Pois é, cara, num sábado, eu saí de casa antes do almoço, passei na porta do bar e entrei. Bar cheio, conversa boa, garrafa de cerveja uma atrás da outra, e umas dosinhas de pinga, porque ninguém é de ferro. Nem percebi o tempo passar. Acho que eram umas cinco da tarde quando ela entrou no bar. A minha mulher”.

Quando a esposa vai atrás do marido a coisa vai ser feia. Ele continuou:

“Não deu nem tempo de ficar surpreso. Ela estava bufando, não olhou para nenhum lado, não falou nada, só olhava nos meus olhos. Pedi para ela se acalmar, ela tem pressão alta. Pois ela me meteu a mão na cara”.

O tempo parou durante aquela conversa, porque eu imaginei a cena. O tapa, o estalo, a pele da face esticando, mandíbula bamba e a pinga misturada com saliva voando para fora da boca. Cena de filme.

Ele riu e eu soltei minha risada presa. Ele continuou:

“Caramba! Todo mundo ficou me olhando. Ela, bruta, só disse: ‘Cê aqui encheno o rabo de pinga com esses vagabundo e us minino cum fome lá im casa’. Quase não acreditei que era ela. Ela fala tão certinho, e agora estava com o sotaque caipira mais carregado que já ouvi”.

Fiz cara de ‘pois é’ e ele continuou.

“Uns riram, outros assustados saíram do bar. Fui pagar o Zezão do bar, e ele: ‘Vai, vai, pode ir. Depois a gente vê isso’”.

Que situação!

“Em uma mesa ainda ouvi um cara dizer para outro, depois de virar uma dose: ‘Esse tem sorte! Homens iguais a nós precisam de uma mulher dessas’. Saí do bar com ela, bem caladinho.”.

Eu não quis julgá-lo pelo fato dele ter saído para comprar a mistura do almoço e não ter voltado. Sobre esse fato, a mulher dele já tinha investigado o caso, juntado as provas, denunciado, condenado e executado a pena com um tapa e humilhação pública.

Ele continuou:

“Foi um sinal de Deus! Eu amo essa mulher e meus filhos. Sem eles não sou nada. Depois daquilo até nossa condição financeira melhorou”.

O homem estava realmente emocionado.

“Muitos naquele bar tinham deixado os filhos e a esposa em casa. Não todos, claro. Eu precisava aprender a me divertir, me entreter e não somente beber para esquecer os problemas. Esquecer os problemas é não querer resolvê-los. Temos um grupo no Whatsapp. Vou te colocar nele. Os caras do bar são gente boa demais. Qualquer hora você precisa ir lá jogar uma sinuca com a gente”.

Depois dessa exposição filosófica de boteco, eu aceitei o convite, mas não por enquanto. Bar é bom demais e minha esposa também é brava, não vou dar mole.

O celular dele tocou, era ela de novo:

“Ih, rapaz! Deixa eu ir”.

Eu o apressei. E falei que também precisava ir senão a minha me ligava também.

“Muiézada braba demais. Deus me livre!”. Rimos e nos abraçamos em despedida.

Antes dele entrar no carro, mesmo com o celular na orelha, ainda ouvi a esposa dele dizer com voz alta, sotaque caipira carregado e aquele rastilho de amor cuidador que é raro hoje em dia:

“Vem imbora, rapaiz! Us minino tão cum fome.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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