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Um bolo para minha mãe

No próximo dia 25 de outubro, minha mãe faria 81 anos. Seria um dia especial para ela, pois, entre 1945 (ano em que nasceu) e 2021 (ano em morreu), ela viveu muita coisa: se casou, em 1964, aos 18 anos, e sonhava com as bodas de ouro que não vieram; votou para presidente pela primeira vez, em 1989, e, em 2018, pela última; perdeu o pai que amava aos 14 anos e, mais tarde, a primeira filha para a meningite. Mudou de cidade para salvar a outra filha (no caso, eu), ficou viúva, foi curada de um câncer de mama, sobreviveu a ataques epiléticos. Pode parecer que sua vida foi só tristeza, mas não. Era uma mulher alegre, sem filtro, sempre pronta a ajudar. A cura do câncer e a reconstrução da mama – garantida pelo SUS -, no hospital Pérola Byington, foram um divisor de águas em sua vida. Comemorou os 50, os 60 e os 70 anos, com muita alegria de viver. Seus maiores presentes foram seus netos. O nascimento deles era motivo de felicidade espalhada a quem quisesse ouvir. Por isso, chegar aos 81 anos, em pleno domingo, seria motivo de muita comemoração. Mas ela se foi em 2021 e não conseguimos comemorar nem seus 80 anos. Por isso, há tempos penso em honrar sua memória,criando um bolo especial. Uma receita fácil que você pode fazer na sua casa, à qual chamo “um bolo para minha memória”, ops, digo “um bolo para minha mãe”.

Para a Massa:

700 mil porções de saudades: colhidas todos os dias, em memória daqueles que restaram apenas nas lembranças.

4 doses de vacina: vital para lembrar que, sem a ciência, a sobrevivência seria impossível.

1 litro de lágrimas, por aqueles que, como minha mãe, não foram vítimas apenas da Covid-19, mas do descaso daqueles que negligenciaram suas histórias.

1 Voto: a única arma legítima que nós, os pacifistas, vamos usaraté alcançar os 51%.

Para o Recheio:

Em um recipiente profundo, misture Democracia, Liberdade e Memória, em partes rigorosamente iguais. Para um sabor mais resiliente e resistente ao tempo, acrescente uma dose generosa de memória. Umedeça a mistura, lentamente, com as lágrimas derramadas por ela e pelos demais mortos em 2020, 2021, 2022, até que o recheio ganhe a consistência exata do respeito e da dignidade que eles merecem.

Para a Cobertura:

Cubra o bolo com as cores vibrantes da nossa bandeira: o verde das nossas florestas devastadas; o amarelo das riquezas que pertencem ao povo, e o azul do céu que,às vezes, fica cinza diante da fumaça dasqueimadas. Finalize, salpicando um pouco de branco simbolizando a paz e o vermelho do sangue derramado desde 1.500. Não precisa escrever ‘feliz aniversário’, a frase pode ser ‘justiça social para os filhos da pátria’, porque, sem ela, não há ordem, nem progresso possíveis, de forma que nunca mais sejamos ameaçados por correntes e ideologias negacionistas e antidemocráticas.

PS 1: Como toda boa receita, lembrar de colocar uma pitada de ódio, para harmonizar todos os ingredientes, afinal, não somos imbecis.

PS 2: Este texto foi ajustado com IA [uma prova de que a tecnologia pode ser usada para organizar memória e indignação, ao invés de espalhar desinformação e apagamento histórico].

Soraia Veloso

Soraia Veloso Cintra é Docente da Universidade Federal de São Carlos e Membro da Academia Francana de Letras, Cadeira nº 15 Marina de Andrade Marconi

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