As enxaquecas de Floresta de Maio

Quando o vento boreal, aquele que vem do norte, irou sabe-se lá com o quê, e chegou bravio nas Três Colinas, não poupando nada e uivando à tudo, Virtude decidira que precisavam mudar do topo da montanha.
– Eu vi um lindo chalé em um pomar – exclamou sorridente para Floresta de Maio.
Retendo a tesoura de tosquiar, o pastor de ovelhas concordou com facilidade. Fazia um tempo que cogitava a ideia de mudança, pois Lipe crescia mais rápido que as lãs de seu rebanho; o menino precisava de mais espaço para correr e brincar.
A aquisição do chalé demorou um pouco. O atual proprietário era um afamado empresário, altamente destacado pelo cabo-de-guerra nas negociações; um de seus prazeres. Mas Virtude, toda prosa, não perdia na retórica e bem observado, era ligada no 220.
Convicto de que logo, logo sua esposa venceria nas articulações monetárias, Floresta de Maio preparou a prevista mudança com esmero e certa ajudinha da família: praticamente todo mundo do lado de Virtude, que aí vinha irmãs, cunhados, sobrinhada! Nó, festão de três dias, se deixasse.
Caixa no caminhão, ovelhas na carroceria! Hora de mudar!
Que nada…
Floresta de Maio amanheceu com uma enxaqueca daquelas de nevoeiro, que a gente não enxerga um palmo. E no caso do pastor, afetava a todos: uma densa neblina exalava de seu corpo, atingindo bairros ao redor. Sem visibilidade, sem mudança.
Esperaram o outro dia. Mudança no caminho, Floresta de Maio ao médico.
Exames e lá vem medicação! Era tomar, ficar sem enxaqueca e, de efeito colateral, ser carregado pelo vento de tão leve que se tornava.
Teve vez de o encontrarem em Seul, Coréia. Bem, já que estavam lá, aproveitaram alguns dias de férias.
Todavia não estava direito!
– Esse remédio mais atrapalha do que ajuda – reclamava Floresta de Maio no teto do chalé.
Os longos períodos de enxaqueca contestavam naquela neblina de nem conseguir fritar ovo; só dormindo para sossegar e com ressalvas. Muitas vezes o medicamento também era necessário, tendo que o prender firmemente à cama.
Angustiado com seu infortúnio, Floresta de Maio foi se conformando ao passar dos meses. Infelizmente não poderia deixar o remédio, claro, mas qualquer desatenção e pronto, era encontrado em algum país, como na Escócia.
Mestre Vinícius, uma espécie de líder dos Mestres Sapateiros em Franca, simpatizou com o pastor e lhe ofereceu vários sapatos e outros calçados. Especialmente confeccionados ao que ocorria, eles eram levíssimos para caminhar e, o mais importante, não deixavam as flutuações ocorrerem.
– Sempre que precisar de mais calçados, nos procure – avisou Mestre Vinícius aceitando um cheiroso café.
Floresta de Maio agradecera com veemência. Entretanto, era uma resposta provisória, sem dúvidas. Tomar banho, entrar em piscinas de sapatos?
Em um coincidente mês de maio, sem tomar remédio e a enxaqueca querendo perturbar, seus olhos lacrimejaram e ele sentiu que seria assim para o resto da vida. Lipe, sorridente como Virtude, pediu colo e aproximou o rosto de seu pai, lhe dando um beijo na bochecha.
– Não chore, papai. Eu tô aqui.
Contemplando suas ovelhas com Lipe no pescoço, Floresta de Maio irradiou felicidade.
A partir daquele dia, várias vezes viera a enxaqueca, porém sem a neblina que lhe bloqueava o olhar.






