Colunas

Além da insulina: a iInadiável necessidade de tecnologias de monitoramento e acessibilidade no SUS

Por Guilherme Kalel

O anúncio do governo federal celebrando a produção em larga escala e a distribuição da insulina glargina no Sistema Único de Saúde (SUS) representa, indiscutivelmente, uma conquista relevante para a saúde pública do Brasil. No entanto, comemorar a ampliação do acesso aos análogos de insulina sem prover os meios indispensáveis para a sua dosagem e acompanhamento é uma estratégia incompleta. Para milhões de brasileiros que convivem diariamente com o diabetes, o tratamento não se resume à aplicação do medicamento; ele exige precisão, dados e ferramentas contínuas de aferição.

Tratar o diabetes sem garantir o controle glicêmico adequado é como fornecer um veículo moderno a um condutor e privá-lo do painel de controle. É exatamente nesse ponto que a gestão pública peca por uma visão limitada. Os sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) deixaram de ser itens de luxo ou meras conveniências tecnológicas; tornaram-se ferramentas essenciais para a segurança, dignidade e manutenção da vida dos pacientes.

Infelizmente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) tem reiteradamente apresentado pareceres desfavoráveis à inclusão ampla desses sensores na rede pública, sob a justificativa de custos e critérios orçamentários. Esse posicionamento reflete uma miopia administrativa perigosa. O cálculo financeiro da saúde pública não pode se restringir ao preço do insumo imediato, mas deve mensurar o custo social e financeiro do descontrole da doença — que se traduz em internações por hipoglicemia severa, amputações, insuficiência renal e cegueira, custos estes que sobrecarregam infinitamente mais o próprio sistema de saúde no longo prazo.

A urgência dessa demanda ganha contornos ainda mais dramáticos quando analisamos a acessibilidade para populações vulneráveis, em especial as pessoas com deficiência visual. O método tradicional de medição — a picada de ponta de dedo — exige acuidade visual para manipular as fitas reativas, alinhar o sangue no dispositivo e ler os números em telas pequenas e sem retorno sonoro. Para quem perdeu a visão, frequentemente como consequência do próprio avanço do diabetes, esse procedimento torna-se um obstáculo intransponível de forma autônoma.

Exigir que uma pessoa deficiente visual dependa do auxílio constante de terceiros para realizar múltiplos testes diários é uma violação direta dos princípios de autonomia, dignidade e inclusão social. Os sensores de glicose modernos, quando integrados a aplicativos de smartphones com leitores de tela habilitados por voz, devolvem ao indivíduo a capacidade de gerir a própria condição com total independência e segurança.

O SUS é fundamentado nos princípios da integridade e da equidade. Ignorar os avanços tecnológicos que promovem acessibilidade e qualidade de vida é atuar na contramão desses preceitos fundamentais. A modernização do tratamento do diabetes no Brasil precisa ir além da caixa de insulina; exige a democratização do acesso aos sensores de monitoramento. É hora de o Estado olhar para os cidadãos com sensibilidade humana e responsabilidade socioeconômica, superando a inércia burocrática para garantir que o direito à saúde seja pleno, inclusivo e universal.

Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor

Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo