Colunas

Moça-raposa

Filhotinha de tudo, Vulpes abria os pequenos olhos à luminosidade que teimava em adentrar pela abertura da toca. Sonolenta, bocejando devagar, a raposinha procurou sua mãe e percebeu apenas o cheiro que se enfraquecia – provavelmente ainda caçando.

Não se enganara. Com as patas empoeiradas, a raposa mais velha apareceu com uma gorducha ave entre os dentes. Cansada, destrinchou a caça, facilitando as mordiscadas de Vulpes.

– Temos que nos mudar – comentou a mãe ainda de boca cheia. – Está cada vez mais difícil encontrar alguma coisa nessas matas.

A vida de Vulpes, por um tempo que ela não soube mensurar, se resumia nessas peregrinações de nômades. Não havia momentos para criar amigos ou realmente conhecer o lugar. Comida acabada? Pé na estrada.

Ora! Já toda raposa de si, confrontou a progenitora e não houve segunda vez. A mãe virou as costas e rosnou:

– Fiz tudo o que podia. Segue teu rumo.

E a deixou perto de um regato límpido. De orelhas caídas, Vulpes olhou seu reflexo nas águas e sentiu imensa angústia, quase correndo atrás da mãe. As patas até titubearam, mas conseguiu se manter firme. Sussurrou um adeus para que o vento carregasse e, farejando uma trilha de gado, se arriscou nas veredas desconhecidas.

Foram dias terríveis de muita fome e calamitoso frio que vinha cavalgando pela chuva gelada. Encontrara tocas paupérrimas, enlameadas, não obstruindo nem os fulgurantes brilhos de raios que a cachorra dos céus trazia.

Sentindo a força dos ventos, vagou a esmo por algum abrigo, até alcançar as Três Colinas. Era noite e continuava a úmida precipitação, suplantando a tímida lua. Entretanto havia muita claridade, pois a cidade cascateava em luzes.

Na decisão de se ver entre humanos, surrupiou roupas de uma varanda, vestiu e fez-se moça com um rubro cabelo que caía pelas costas. Pequeno nariz no lugar do focinho; mãos ao invés de patas. Teve extrema dificuldade em andar sobre as duas pernas e os alvos pés. Pelejou noite adentro e conseguiu bom equilíbrio ao raiar do dia.

Na rua, descalça mas muito otimista, tentou se comunicar com alguém e, longe de ter dificuldades, fora muito bem compreendida.
– Fala, corintiana – saudou um mini humano com uma enorme mochila nas costas.

Achou estranho ser chamada assim e teve que perguntar a razão. Ele apontou para a camisa dela e caminhou a uma edificação onde outros humanos em miniatura se reuniam.

Quase foi atrás, mas sentiu um cheiro tão forte, agradável a ponto de colocar a língua sobre os lábios, fazendo seu estômago urrar de fome. Precisava de tal presa!

Estava para alcançar a origem daquela deliciosa fragrância, quando um estranho bicho de metal se estirou ao chão, lançando um rapaz aos pés de Vulpes.

Todo lanhado, um pouco arquejante, ele não conseguia se levantar. A moça-raposa olhou tristemente na direção que emanava o cheiro, pensou, e acabou decidindo por ajudar.

– Obrigado, corintiana – agradeceu o recém-acidentado, sofrendo para colocar o bicho de metal em pé. – Preciso beber alguma coisa. Vem, vamos ali na pastelaria. Te pago o que quiser, é o mínimo. Ah, meu nome é Gibraltar; ou Passense, que é meu apelido.

Teve romance? Mas é claro!

Todavia, em dias de chuva, Vulpes gostava de voltar a ser raposa, se soltar pelas colinas, deixar marcas na lama e se encontrar mais uma vez.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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