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“O Palhaço Triste”

Era o trecho mais triste do litoral brasileiro, porque cidades quase mortas se davam as mãos, como contas de um rosário a reprisar o caminho pelo qual seguiam os retirantes de João Cabral, saídos do Sertão em direção ao mar do Recife. Cidades onde havia homens que pescavam, mulheres que faziam rendas, velhos que contavam histórias, meninos que esperavam crescer para ganhar o mar e depois casar com as meninas, e estas predestinadas a gerar outros meninos e meninas, enquanto teciam rendas.

Mas havia numa dessas cidades um menino chamado Jonas, que sonhava com coisas além do mar, e que passava tardes inteiras na Praia do Só contemplando o horizonte, como se pudesse enxergar algum mistério na linha onde as águas e o céu pareciam formar um só azul. Era bonita e triste a Praia do Só, como se reunindo essas características traduzisse a vida, que é bonita e triste a ponto de dar na gente sentimentos difíceis de traduzir.

Um dia o circo chegou à cidade, anunciando “O Grande Circo Místico”, festejado espetáculo de Chico Buarque e Edu Lobo, em montagem mambembe, mas quem conhece a gente do circo sabe bem que simplicidade e magia são sinônimos. Estava o circo na cidade quase morta e isso era uma autêntica explosão de vida. Os pescadores e as rendeiras se animaram, animaram-se os idosos, os meninos e meninas se animaram e até o mar da Praia do Só pareceu mais agitado com a chegada da atração. Jonas, ao saber da novidade, foi à praça central ver o desembarque da trupe e de tudo aquilo que ela trazia, como a imensa lona encardida e cheia de buracos, os macacos cheios de energia e um leão cujas falhas na juba denunciavam já ser longa sua carreira no circo.

Jonas olhava tudo admirado, porque aos 17 anos ainda se é muito menino a ponto de os olhos brilharem diante de algo tão incomum por ali: o circo! Todos que passavam por Jonas ganhavam dele um sorriso: a mulher barbada, os anões, a dupla de palhaços, os equilibristas, o domador e o mágico. Até que diante dele surgiu a menina mais linda do mundo, com cabelos de fogo, enormes olhos verdes e a pele muito branca salpicada pelas sardas, como se fossem estrelas cintilantes na imensidão do firmamento da Praia do Só. Jonas entrou em transe, do qual só saiu quando o dono do circo, com sua voz tonitruante, o convocou:

  • O rapaz vai ficar parado aí com um circo inteiro para montar? Vamos, meu filho, vamos!

Jonas, maravilhado com aquele mundo novo, nem pensou recusar a oferta, ao contrário: foi se enveredando pelos caminhos, pegando um martelo aqui, pregos acolá, recebendo ordens para puxar cordas, içar trapézios, empurrar malas, baús e caixas que pareciam não ter fim, além de dar água para os macacos e arranjar espelho para que a dupla de palhaços, Formiga & Fumaça, pudesse aprontar a maquiagem sem borrar mais do que o necessário. De tarefa em tarefa, ele foi ficando e virou uma espécie de faz-tudo da trupe.

Certo dia, ele espiou por uma fresta o ensaio da menina mais linda do mundo, com cabelos de fogo, enormes olhos verdes e a pele muito branca salpicada pelas sardas. Ela vestia um maiô azul com figuras douradas e prateadas, representando o sol, a lua e as estrelas. E rodopiava parecendo nem tocar o chão do picadeiro. A música tomava conta de tudo:

“Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz”.

Jonas tomou coragem e foi se apresentar à moça:

  • Olha, Beatriz, foi a coisa mais linda que eu vi até hoje e eu nem sei muito o que te dizer, nem mesmo a ordem das palavras. Meu nome é Jonas. Muito prazer!

Ela riu do jeito espontâneo e atrapalhado dele, tratou de se apresentar e esclarecer:

  • Meu nome não é Beatriz, não! Eu me chamo Celine, muito prazer! Beatriz é o nome da música que eu estava ensaiando e da personagem que eu vou representar, faz parte do espetáculo que é todo musical, e é todo ele falando do circo!

Celine tinha cabelos de fogo, enormes olhos verdes, a pele muito branca salpicada pelas sardas e acabara de completar 18 anos, atributos que combinavam bem com a juventude de Jonas e seus predicados físicos, comuns aos homens do mar ou aos meninos que aspiram a ser um deles, por vocação ou sina. Apaixonaram-se e o circo virou palco para o maior espetáculo da Terra, o amor. Claro que tudo muito escondido, afinal Celine era a filha única do dono do circo, o que por si já poderia render a Jonas não só grande dor de cabeça como a própria cabeça e rua! Era preciso ter cautela na proporção direta da paixão, o que não impediu que se amassem certa noite no meio do picadeiro vazio, tendo por testemunhas os raios de luar que entravam pelos buracos da lona.

Quando o palhaço Fumaça caiu doente de apendicite, coube a Jonas substituí-lo. Celine lhe pintou o rosto e ensinou as falas e inflexões, os gestos e as caretas, o jeito de andar e de correr pelo picadeiro, também como cair, levantar e agradecer. Tudo sob a rígida supervisão e aprovação do palhaço Formiga. Jonas, de tão feliz, seria capaz de fazer rir a mais sisuda das criaturas. Celine caprichou na trilha ao chamar a dupla para o picadeiro:

“Em toda canção
O palhaço é um charlatão
Esparrama tanta gargalhada da boca pra fora
Dizem que seu coração pintado
Toda tarde de domingo chora…”.

Sucesso absoluto. Aplausos. Pedidos de bis! A noite mais perfeita que um artista poderia ter. O abraço apertado de Celine, o perfume dela, os enormes olhos verdes, a pele branca salpicada de sardas, os cabelos de fogo e um desejo maior do que o mundo:

  • Minha princesa, minha bailarina, hoje vamos nos amar sob a lona do céu, deitados em um lençol de areia, ouvindo a música do mar, lá na Praia do Só!

Assim fizeram e adormeceram abraçados, exaustos de amar! Foram acordados nos primeiros raios de sol. Ela aos berros pelo pai furioso, colocada a tapas dentro de um carro do circo; ele, aos safanões, jogado no banco traseiro de uma viatura policial e depois numa cela, a pão e água, por três longos dias. Crime algum cometera, mas à época vigorava a máxima do presidente general: “Eu prendo e arrebento!”.

Quando foi enfim libertado, o circo já havia partido. Jonas se desesperou e quis saber do delegado para onde a trupe seguira, queria reencontrar Celine, poder se explicar para o pai dela, falar de sua intenção de casar e de viver do circo. Ouviu como resposta uma cafajestada:

  • Essa gente é feito bicho xucro, sai pelo mundo sem rumo atrás de comida. Aliás é pior do que bicho, pois nem rastro deixa e já devem estar longe, graças a Deus! Assim não me criam mais problemas! E você trate de virar gente, feito o teu pai, e viver do mar que nem homem, pois quem ganha a vida pintando a cara e dando risada é mulher de zona!

Jonas saiu dali para a Praia do Só, os olhos fixos no horizonte onde as águas do mar parecem se fundir com o céu formando um só azul. Na cabeça uma pergunta sem resposta: “Para onde vai o amor que deixa marcas na gente, mas não deixa rastros no chão?”. Tardes inteiras de lembranças, uma agonia interminável, uma angústia e uma tristeza sem fim.

No trecho mais triste do litoral brasileiro, havia homens que pescavam, mulheres que faziam rendas, velhos que contavam histórias, meninos que esperavam crescer para ganhar o mar e depois casar com as meninas, estas predestinadas a gerar outros meninos e meninas, enquanto teciam rendas.

E havia um homem chamado Jonas, conhecido como “O Palhaço Triste”, dono de um barco cujo casco trazia o nome Celine, em letras vermelhas. E ele voltava diariamente do mar cantando uma música triste:

“Abram o coração
Do palhaço da canção
Eis que salta outro farrapo humano e morre na coxia
Dentro do seu coração de pano
Um palhaço alegre se anuncia
A nova atração
Tem um jovem coração
Que apertado por estreito laço amanhece partido
Dentro dele sai mais um palhaço
Um palhaço com olhar caído”.

E todo final de tarde, quando o sol poente incendeia o horizonte pintando o céu de vermelho; quando as águas ficam tingidas de um verde imenso e profundo; e as areias brancas e quentes se transformam em um abraço, Jonas lembra de Celine, a menina mais linda do mundo, com seus cabelos de fogo, enormes olhos verdes e a pele muito branca salpicada pelas sardas.

Lembra do amor que viveram e que para ele não acabou jamais. Fecha os olhos para ouvir as ondas repetindo, com a voz de Celine, as juras da derradeira noite: “Eu te amo para sempre, meu palhacinho! Para sempre!”. E se sente feliz respondendo para as ondas: “Eu também te amo pra sempre, minha princesa! Minha bailarina!”.

E volta para casa na noite escura, guiado por alguns raios de luar que teimam em furar as nuvens do céu, como se elas fossem uma imensa lona esburacada sob a qual todos nós somos artistas, bailarinos, mágicos, malabaristas, domadores ou apenas palhaços tristes que fazem rir mesmo querendo chorar!

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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