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O aniversário de Freud e a urgência do autoconhecimento

06 de maio de 2026. Se estivesse entre nós Sigmund Freud estaria completando 170 anos. Apesar da distância que nos separa dele, sua obra e seu trabalho conseguem influenciar e impactar a cultura ocidental de maneiras nem sempre evidentes.

O pai da psicanálise deixou um legado ímpar sobre os estudos da mente e da personalidade, pavimentando o caminho para o que hoje é chamado de psicologia clínica. Atender pacientes, recebê-los em um ambiente onde há um divã, realizar o tratamento através da fala, tudo isso é o legado de Freud vivo e atuante.

Há muitas descobertas e formulações fundamentais dele que ainda são utilizadas pelos profissionais, tanto para manejar pacientes quanto para compreender suas demandas. No centro das inquietações de Freud sobre o adoecimento humano e sobre o que seria possível fazer para amenizá-lo parece sempre estar presente a busca pela autocompreensão e entendimento de si mesmo. Apesar de não ser muito reconhecido, Sigmund Freud buscou sempre conhecer e compreender a si mesmo, na medida em que buscava conhecer e compreender aqueles a quem ele atendia. Para além dele, talvez a única pessoa na história da psicanálise que não teve pudores ou medos – ou que se permitiu, apesar deles – para admitir que também precisava de autoconhecimento para melhor compreender os demais tenha sido apenas Karen Horney, e somente ela.

Desde a invenção da psicanálise alguns caminhos foram propostos para que o autoconhecimento possa vir emergindo, num período em que o conceito ainda nem era claramente definido ou debatido. Particularmente na abordagem freudiana, defende-se a importância das experiências infantis, de serem relembradas durante o processo psicoterapêutico, de modo a não apenas trazer compreensão, mas trazer alívio ao se falar sobre elas. Outros importantes pilares da psicanálise e da psicologia psicanalítica foram – a partir do trabalho de Freud – apontando outras formas de se buscar o autoconhecimento: Melanie Klein, com a ênfase nas fantasias; Wilfred Bion, com a sua teoria do pensar e dos vínculos; Jacques Lacan, com a linguagem do inconsciente; Karen Horney, com as vivências – reais e as irreais – do self; e tantos outros. Aqui vamos falar um pouco sobre este último modelo.

A escola neofreudiana, sobretudo a vertente da psicanálise humanista, fundada por Horney – com a qual me sinto fortemente identificado –, defende que além da importância das experiências infantis, a qualidade dos relacionamentos interpessoais do passado e do presente ajudam a compor nossa visão sobre nós mesmos e direcionam nossa maneira de reagir às situações em geral. Uma visão mais realista nos fará mais próximos de nosso eu real (real self), uma visão de si mais distante da realidade, também nos deixará mais distante de quem realmente somos e nos levará a ter relacionamentos pessoais complicados, de diversos modos. Num estudo anterior, apresentei essa questão da seguinte maneira:

“Os verdadeiros pensamentos, sentimentos, desejos, impulsos, fantasias e identificações da criança (e mais tarde, do adulto) compõem aquilo que Horney chama de ‘eu real’ (real self). O fundamento da saúde mental, da autenticidade, dos bons relacionamentos sociais e da paz de espírito, segundo Horney, é o eu real. Pessoas que estão ‘alinhadas’ com o eu real e que, por consequência, possuem bom autoconhecimento e boa aceitação de si mesmas, tendem a ter menos insegurança, menos ansiedade e menos indecisão frente às escolhas importantes da vida. Além disso, são menos rancorosas, sobretudo com as realizações de outras pessoas e, portanto, são menos invejosas que quem não está em acordo com os próprios desejos. São, também, pessoas mais capazes de enfrentar aos seus limites internos e externos para realizar seus próprios sonhos. Ao mesmo tempo, costumam ser incentivadores dos sonhos das outras pessoas” (BUZONI, 2021, p.51).

E isso significa que o autoconhecimento, se trabalhando diariamente e de modo realista, trará benefícios diversos para o indivíduo. Quem melhor se conhece entende bem seus pontos fortes e fracos; não se deixa levar pela maré das circunstâncias, deixando tudo a cargo do destino; encontra forças dentro de si para se livrar de relacionamentos tóxicos e abusivos, pois sabe que “merece mais”; faz escolhas mais acertadas na vida profissional e, caso perceba equívocos, consegue mudar a rota de modo assertivo. Gosto de chamar essa consequência do autoconhecimento de liberdade interna. Minha visão sobre liberdade interna está mais para uma “pós-travessia” de quem se permitiu olhar para si mesmo, compreender e aceitar aquilo que é genuíno e aquilo que era mera crença limitante. Liberdade interna é fazer aquilo que se quer e sustentar as consequências disso. É, mesmo diante de toda descrença externa, manter sua posição pessoal, indo atrás de seus objetivos. É um permitir-se a si mesmo. Naturalmente, em alguém que fora submetido a um processo saudável de desenvolvimento do self, a manifestação da liberdade interna se dará de modo mais ameno e natural no agir, no pensar, sem que sua conquista tenha cara de uma guerra vencida.

            Os 87 anos que nos separam de Freud permitiram que muitas ideias da psicanálise corressem o mundo, adentrando a cultura pop e mergulhando também num diálogo com outras áreas do saber. Autoconhecimento e ideias como inconsciente e recalque se tornaram termos de uso coloquial, onde muitos têm uma noção do que significam e levam seu significado para a vida. Mesmo assim, nesta era tecnológica a distancia a que as pessoas estão de si mesmas para ser ainda maior que no tempo de Freud. As respostas rápidas e as facilidades das tecnologias possibilitaram o surgimento de uma geração extremamente ansiosa, avessa à espera. As crianças às vezes dão a impressão de já terem nascido assim, de serem diferentes das gerações anteriores em essência; embora seja sabido que esse estilo de vida onde tudo é recebido em mãos – exceto os tão necessários “nãos” – e onde as telas estão ao alcance num momento em que os pequenos deveriam estar aprendendo a andar e a explorar seu ambiente, é responsável em gigantesca parte pelas demandas infantis trazidas aos consultórios atualmente…

            Fica pairando a incógnita de “se temos tanto conhecimento à disposição, por que ele praticamente não é usado para autocompreensão?”. A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo” parece descansar em paz nas bibliotecas universitárias enquanto o que se vê é uma busca constante da população por prazer imediato e alienação de si mesmo, como diria Horney. Nas redes sociais, por exemplo, continua forte a busca por figuras que vendem uma vida supostamente perfeita e feliz, onde os seguidores “comem” as imagens de modo a “usufruir” das histórias contadas nos vídeos por meio de projeção (mais um conceito de Freud), sem refletir sobre a veracidade ou a intenção (branding) por trás dos conteúdos apresentados.

            Em nosso mundo contemporâneo os questionamentos de Freud permanecem atuais, no que diz respeito a “por que as pessoas sofrem?” e sobre o que é possível fazer para diminuir o sofrimento. Nessa era tecnológica disseminar conhecimento soa quase uma obrigação, tendo-se em vista outros tipos de conteúdo que circulam por aí. Disseminar e incentivar, que seja esta a missão dos profissionais da psicologia, pois atualmente olhar para si de modo realista e com disposição para mudança virou, mais do que nunca, um ato de coragem.

REFERÊNCIAS

BUZONI, Douglas. Consciência emocional: o manual do paciente. Rio de Janeiro: Autografia, 2021.

Douglas Marcel da Silva Buzoni (32), é psicólogo escolar, vinculado às tradições psicanalíticas inauguradas por Melanie Klein e Karen Horney. Com formações que atravessam áreas como psicanálise, educação, comunicação e engenharia, é autor principal ou colaborador de 5 livros e diversos artigos acadêmicos e de opinião. 

Douglas Marcel da Silva Buzoni

É graduado em Psicologia (Unifran/2016) e pós graduação em MBA – Gestão em Marketing e Recursos Humanos (FCETM/2020), Direção de Arte (Anhnaguera/2024) e MBA em Engenharia de Produção (Anhanguera/2025). Autor do livro “Desenvolvimento da Personalidade: Teorias e Técnicas” pela editora Autografia. (http://lattes.cnpq.br/3581407845341281)

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