Kalelvision: educação inclusiva e acessibilidade digital; não é luxo, mas um direito necessário

Por Guilherme Kalel
A partir de hoje, passo a publicar minha Coluna Kalelvision também no Portal Notícias de Franca. É, para mim, de forma particular, uma alegria poder estar neste espaço, trazendo aos leitores minha visão e opinião sobre fatos que importam e impactam nosso dia a dia.
Aceito humildemente todas as críticas construtivas e sugestões para deixar esse espaço cada dia melhor, com conteúdos agradáveis e necessários para informar e explicar situações e acontecimentos para vocês.
Sou uma pessoa com deficiência visual total, ou seja, não enxergo nada. Já nasci assim por um erro de formação genética. Devem estar pensando: se não enxergo, como poderia escrever um artigo ou qualquer outra coisa usando um dispositivo eletrônico?
Felizmente, hoje a tecnologia tornou-se uma importante aliada e essencial na vida das pessoas com deficiência visual — tanto ou mais do que na vida das pessoas videntes. Se os bancos estão no celular e se fazemos consultas por chamadas de vídeo no smartphone, usamos essas ferramentas também para trabalhar e estudar, ainda que com deficiência visual.
Os softwares desses dispositivos recebem recursos de acessibilidade, como leitores de tela, que podem sonorizar para nós tudo o que está escrito, de modo que possamos nos comunicar com o mundo. Para minha vida, esse contato com a tecnologia desde cedo foi fundamental para que eu pudesse me preparar para o trabalho e chegar aonde estou hoje.
Esse caminho começou muito antes, ainda no período escolar, quando o uso do Braille — método em relevo usado por deficientes visuais para ler e escrever — foi sendo complementado pela escrita digital. O computador me permitiu estar, naquela época, em igual condição de aprendizagem com as outras pessoas dentro da sala de aula.
Infelizmente, com o passar do tempo, apesar da evolução da tecnologia, o despreparo de alguns para lidar com a inclusão não melhorou. Por essa razão, milhares de pessoas com deficiência visual no Brasil ainda não têm as oportunidades que tive um dia, e que me permitiram hoje me comunicar com vocês e escrever este artigo.
A Educação Inclusiva, embora tenha dado saltos importantes ao longo do tempo, ainda está longe de ser o ideal. Ainda temos professores despreparados para receber um aluno com deficiência visual e recursos de acessibilidade que faltam ou não chegam a quem precisa.
A culpa disso tudo não é do professor e, muitas vezes, nem da gestão da escola onde o aluno está matriculado. Isso passa por uma questão mais ampla, que envolve políticas públicas — ou a falta delas — para lidar adequadamente com um deficiente visual em sala de aula.
Não basta apenas o governo colocar o deficiente, qualquer que seja a sua condição, no ensino regular. Disponibilizar uma sala chamada de recursos ou um professor de apoio, quando existem esses profissionais nas escolas, é importante, mas é preciso mais.
Pessoas com deficiência, especialmente a visual, têm necessidades diferentes e um tempo de aprendizado próprio. A tecnologia assistiva é um aliado essencial nesse aspecto. Hoje em dia, os dispositivos mudaram muito em relação ao que eram anos atrás.
Se, por um lado, houve muita evolução, em outros aspectos ocorreram retrocessos. As ferramentas para deficientes visuais não precisam ser apenas acessíveis. Ou seja, não basta dizer: “tem um leitor de telas”. É preciso que esses recursos sejam verdadeiramente utilizáveis.
E por qual motivo estou dizendo tudo isso? Devem se perguntar. Em muitos casos, deficientes visuais estão em escolas sem receber um equipamento digital para acesso e acessibilidade, precisando se virar como podem. Em outros casos, os Estados até entregam algum dispositivo, mas não o que o aluno precisa, e sim o que é mais barato — aquele que ganha a licitação.
Os governantes não procuram saber o que de fato funciona. Não há uma consultoria de pessoas com deficiência visual para criar uma política pública que realmente atenda àquela necessidade. E deveria haver.
Seria muito melhor um aluno ter um tablet para estudar que funcionasse e atendesse às suas necessidades, indicado por um profissional de conteúdo digital que entenda do assunto, do que receber um equipamento comprado apenas por ser o mais barato ofertado em um pregão, sem qualquer condição de uso acessível. E acreditem: já vi muito isso acontecer. Equipamentos ficam inutilizados porque não oferecem aquilo que o aluno precisa.
A acessibilidade não é um luxo, é um direito necessário a todos os deficientes visuais, para que possam estudar, aprender e, com uma boa formação, encontrar um caminho dentro do mercado de trabalho.
Não precisamos de pessoas reféns do Benefício de Prestação Continuada (BPC), sobrecarregando os cofres do INSS. E acreditem: deficientes visuais não querem isso. Precisamos das políticas públicas certas, dos equipamentos adequados e das devidas oportunidades. Assim poderemos crescer, nos desenvolver e conquistar nosso espaço.
Para os governantes, fica o lembrete: isso não se trata de um favor. É o nosso direito, assegurado pela Lei 13.146. Para os candidatos às próximas eleições, uma recordação: deficientes visuais também são eleitores.
- Guilherme Kalel é jornalista e escritor; professor de conteúdo digital e consultor em acessibilidade. Autor da Coluna Kalelvision MTB: 89344 / SP E-mail: [email protected]







