O fotógrafo Charles

Charles Lodewijk inclinou tanto a cabeça para trás que, por pouco, não caiu estatelado de costas. Tudo bem, ele precisava contemplar os cento e quatorze metros — sem contar a cruz no topo — que perfaziam a monumental Catedral de Maringá.
— Até mais — sussurrou Charles, retendo a imagem como uma velha fotografia.
No dia 28 de setembro de 1978, junto com dois primos, desembarcou no Terminal Rodoviário de Franca, época em que ainda existiam o Mercadão e o icônico Hotel Francano. Mala de couro começando a desbotar, amarrada com cinta de napa e muitas roupas querendo explodir dali, eram os pertences de Charles, caminhando pela segunda colina naquele deslumbramento do novo, do estranho, das dúvidas de forasteiro.
Chegou à casa dos parentes muito avexado. Arrumou-se num canto, pediu para os joelhos não tremerem: era hora de enfrentar os francanos!
Cortesias, café, pão de queijo, sapato e mais café! O tempo veio apertando, agarrando os bocados que caíam das beiradas, e Charles lá, firme. O olhar atencioso, curioso, qual ave de rapina. Vamos ver o jovem Lodewijk fazendo-se fotógrafo!
Nas suas lentes, o capim-mimoso fulgurou vivo, saltando em cores e ângulos inacreditáveis. Ele via sentido, eternizava a poesia de Franca dentro de quadros e retratos de um mundo distante do seu Paraná.
Casou na Estação, Igreja São Sebastião, alto da terceira colina!
E foi na primeira dessa trina geografia, vários anos mais tarde, enquanto esticava as pernas com sua câmera a tiracolo, que ele teve certeza de ver uma garota com pele de casca de árvore e cabelos como finos cipós.
O fotógrafo esperava a chegada do eclipse solar, sedento por uma bela fotografia. Quando o evento teve início, a diferente silhueta apareceu no canto do olho, uma distração suficiente para tudo ficar tão escuro quanto vendas sobre a cabeça.
— Fique descalço — disse uma voz como brisa de primavera. — E sinta a terra.
Na absoluta escuridão, Charles se reteve em medo e apenas reagiu tirando os sapatos, percebendo o áspero e fofo solo.
— Caminhe acompanhando o som de minha voz, Charles Lodewijk. Não tenha receio, há vida para ser descoberta. Venha.
Um passo curto depois de outro, tateando com a ponta dos pés antes de se firmar inteiro. Onde estava?
Cheiro de mato, de plantas, folhas secas e verdes exalavam entre suas narinas. Puxou o ar por entre os dentes, inflando os pulmões, procurando acalmar seu corpo. Tão baixo, mas perfeitamente claro, a voz expressou que aquele era o primeiro portal.
— E agora alcançaremos o segundo. Ouça.
O pio de uma coruja distante, outros pássaros cantando em pequenos bandos, o balé do vento entre ramagens e o ranger de velhas árvores contavam para Charles que elas já estavam ali muito antes de ele ser cogitado a nascer.
Um sabor frio e metálico oscilou em sua língua. O gosto de água fresca, de infância, quando torrões de terra e grama atiçavam as indagações de menino. Era o terceiro portal.
— O quarto está próximo, Charles Lodewijk. Há algumas raízes à frente. Erga bem o pé para passar.
O vento tornou-se ventania, levantou o cabelo do fotógrafo, arrepiou os pelos da pele exposta. Galhos roçaram seus braços e pernas. Estendeu as mãos, alcançando rugosos e porosos troncos.
— Estamos no quinto e último portal. O mundo clama, os rios sentem sede, as florestas são derrubadas, queimadas… destruídas. Há aqueles que podem fazer a diferença, Charles Lodewijk. Os guie e ensine o que aprendeu. O eclipse está findo. Veja quem pode mudar o mundo!
A luz do sol preencheu fortemente as íris do fotógrafo. Aos poucos, as coisas tomaram foco e ele notou a mata, a trilha, o verde por todo o horizonte. Conhecia aquele lugar: sem dúvidas, era o Parque dos Trabalhadores.
Ao chão, do lado esquerdo, estavam seus sapatos. Girou o corpo em sentido oposto, vendo um espelho com moldura antiga e pesada. Charles contemplou a si mesmo, até o espelho se desvanecer no ar.
A voz primaveril ressoou pelas copas das árvores:
— Ensine, Charles Lodewijk! E quando voltar aqui, traga chá! Eu prefiro o verde…
Uma musical gargalhada foi o último som que o rapaz ouviu.







Maravilhoso, texto de alguém que vivei momentos incríveis na floresta do parque….