Um pouco de mexericos

Poderíamos começar com “era uma vez” de tão fabuloso fora o nascimento das trigêmeas; de tal forma que, anos depois, Krankenhaus fizera toda uma matéria investigativa para tirar a limpo os fatos.
Naturalmente, gêmeos, ou tri, possuem uma diferença de idade em minutos. No muito, horas. Para desconcerto francano, as meninas nasceram em exatamente intervalos de um ano.
– Tenha dó, isso são apenas irmãs normais – disseram todos; menos a mãe e o médico que acompanhou desde o pré-natal até os nascimentos.
E eram univitelinas! Idênticas em tudo com exceção da altura, o que se atenuou e igualou quando alcançaram os dezesseis anos. Sabiamente, as três não falavam a respeito dessa diferença de idade, decidindo que o meio era ideal para todas e não lhes cansavam em futilidades repetitivas, o repertório atenuante, com demonstrações de artigos em jornais e revistas (algumas científicas).
As décadas vieram e a história das trigêmeas tornou-se um fraco rumor, uma especulação folclórica.
E elas viveram suas vidas.
Fizeram o que tinha que ser feito e muito do que queriam. Porém, quando a velhice estava para bater na porta, decidiram morar juntas.
Três quartos para três mulheres em uma casa na rua Professor Carmelino Corrêa Junior, nome grande demais para uma via até que curta.
Como a maior problemática das trigêmeas fora a fofoca do que faziam, também se tornara o maior defeito de todas as três. Era um leva-e-traz de picuinha, especulações que não deixavam nada passar incólume pela Carmelino Corrêa. Conseguiram até binóculos.
Irritante!
Às vezes nem precisava caminhar pelos domínios trigemiais como, obviamente, o gigante Igorovitch indo atrás de morangos; esse ainda tem ressalva, pois todo mundo o via de qualquer lugar de Franca.
Sabe quando você está na calçada, tranquilo e sem aviso prévio vem chuva de enxurrada e tudo? Pois bem, isso ocorreu com a bruxa Carmesim, em um bendito dia que esquecera a vassoura a caminho da aula de karatê.
Teve que passar pela rua das trigêmeas. E foi alvo de mexericos por mais de um mês.
Basta!
Por casualidade ou não, na lua seguinte não se encontrava mais as trigêmeas espreitando a vizinhança.
– Deve que se mudaram. Tomara que pra bem longe – diziam alguns a meia boca.
O que se sabe ou deixa de saber, são as belíssimas fotografias que Charles Lodewijk tirou na rua Carmelino Corrêa de três araras-canindé, aninhadas sobre palmeiras. Teve gente jurando que elas previam o futuro. Mas é ir lá pra conferir.
Ah! É bom lembrar que elas se encontram ali apenas durante o dia. No entardecer, voam para os lados do ginásio Pedrocão. Assistir algum jogo de basquete? Nada! Provavelmente por ter muitas pessoas pra se espiar.








