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Chá Verde

Se tinha uma coisa que Chá Verde gostava era chá, e de óbvia preferência o verde. Acordava saltitante, até eufórica pela bebida. Sua mãe, conhecedora das preferências da filha, deixava a infusão pronta, acompanhada com alguns biscoitos de nata.

– Mas cuidado, hein – brincava a mãe. – Se beber demais vai acabar ficando verde!

Chá Verde até fechava os olhos, balançando os ombros enquanto sorvia a bebida. Comia dois dos biscoitos e pronto: agora era aguardar para mais chá na hora do almoço, quando voltasse da escola.

E a escola não era tão perto. Mesmo pegando atalhos, da rua Fiori Dermínio até a Alípio Resende de Araújo, levava mais de meia hora para alcançar as edificações escolares. Isso quando não estava chovendo ou tendo um sol pra cada cabeça.

Apesar disso, com a barriga cheia, Chá Verde até cantarolava subindo e descendo por aquelas ruas esburacadas, carregando uma mochila quase mais pesada que ela. Chegava na escola bem animada e se deixassem, até dançaria de contente, cumprimentando todo mundo enquanto ia para sua sala.

Calculava, escrevia um poema, desenhava ângulos e tentava decorar alguns elementos da tabela periódica. No momento do recreio, vinha o lanche e, às vezes, ela trazia de casa seu chazinho para acompanhar. As horas passavam no tempo de ferver água: rapidinho e borbulhante.

Se a sirene demarcava o fim das aulas às 11:45, Chá Verde não voltaria para casa em meia hora! Não! Com certeza ao meio dia estaria lá, atrasando raramente uns cinco minutos.

E sobre a mesa estava ele, brilhando, perfumado que não tinha como! O primeiro golinho destampava novo sorriso na face da menina, que só aí se lembraria de estar com fome.

“E logo será o chá das cinco”, pensava em seu quarto. “Se a rainha pode, eu também posso.”

Quando Chá Verde entrou para a faculdade e decidiu morar sozinha, seu vício piorou: nem água bebia, carregando uma garrafa térmica pra tudo que é lugar, mesmo em dias quentes ou noites de festa! Se pudesse, até sonhando beberia aquele chá.

E foi em uma terça-feira depois de um feriado prolongado que as coisas desandaram dramaticamente para Chá Verde. Ela caminhava despreocupadamente pela avenida Chico Júlio, próximo à casa que alugara recentemente, percebeu a garganta seca e resolveu se refastelar na sua bebida favorita.

Sentiu quando o chá alcançou seu estômago e imediatamente uma coceira se espalhou por todo o corpo. Começou a coçar e, horrorizada notou que toda sua pele se transformara em casca de árvore! Seus cabelos eram finos cipós verdes, suas unhas eram como nozes! Quando olhou seu reflexo na vitrine de uma loja, teve medo e gritou ardentemente.

Correu, correu tanto como pode, saindo da avenida por várias ruas até se embrenhar pela mata no Parque dos Trabalhadores. As seivas que escorriam dos seus olhos como lágrimas e o choro tão doído lhe fizeram sumir de tudo e todos… Alguns dizem que ela ainda vive por lá, solitária, cuidando da mata, assustando quem lhe importuna… Todavia, é sabido: quando for ao Parque dos Trabalhadores, sempre tenha um pouco de chá verde preparado.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

12 Comentários

  1. Amei essa coluna 😌🍵
    A Chá Verde é divertida!
    Tem uma delicadeza meio caótica que dá vontade de reler só pra sentir de novo. Parece simples, mas fica ecoando depois… dessas leituras que abraçam sem fazer barulho.
    E hoje a chá verde tem o cabelo verde 🤣🤣🤣

  2. Espero ansiosa todos os sabos com meu chá as vezes um “cháfe” mas sempre ansiosa pelo dia de hoje. Alegra meus dias e conto os dias. Imagina só a palavra de mãe tem poder hehehe

  3. Espero ansiosa todos os sabos com meu chá as vezes um “cháfe” mas sempre ansiosa pelo dia de hoje. Alegra meus dias e conto os dias. Imagina só a palavra de mãe tem poder hehehe

  4. Eu adoro como a história começa leve e cotidiana e, do nada, se transforma numa lenda quase sombria. A metáfora do vício crescendo junto com ela ficou muito bem construída. Terminei com aquela sensação de minha nossa ficou mais profundo do que parecia no começo.

  5. Hoje eu estive no Parque dos Trabalhadores, mas não levei chá verde, enquanto caminhava pela trilha, senti um arrepio nas costas, acho que um cipó me tocou, mas foi de forma carinhosa, porque num determinado momento abracei uma grande árvore, percebi que suas cascas, apesar de serem porosas e grossas, eram contagiantes e gentis comigo… Foi como um poema que se movia em meu caminho, como o vento movendo as folhas, e meu coração batia no mesmo ritmo que as seivas corriam pelos galhos. Chá verde, não é solitária, é guardiã que respira e cuida das sementes lançadas ao chão pelos pássaros e pelo vento, e pelos amantes da natureza… Parabéns pelo seu texto. Um abração.

  6. Adorei o conto, mas continuo indignado em pessoas que gostam de chá…Meu gosto não é muito para isso!
    Gosto de como vou aprendendo um cadinho mais de cada ponto de Franca, sem precisar ir de fato para lá, um dia em uma visita, já tenho um tour feito a base de contos. Obrigado

  7. Deu até vontade de tomar um chá!
    Quando eu era criança, meu pai,preparava chá de mentrasto pra gente.Servia com sal.
    Segundo ele, era bom para matar as” bichas” da barriga.🤣🤣🤣🤣🤣😅

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