Infanticídio

A imprensa tem publicado com frequência alarmante, notícias de pais e mães coniventes com o assassinato de seus filhos por padrastos e madrastas, como no caso do menino Henry Borel; da menina Ketelen Vitória Oliveira e de tantas outras crianças vítimas de maus tratos, espancamentos e assassinato por seus genitores e/ou companheiros (as).
Ligações Perigosas

Que ligação é essa, em que o ciúme e a posse justificam o assassinato? É como se na luta por seu objeto de desejo, alguém precisasse morrer. O criminoso executa concretamente o que lhe vai por dentro: me ameaçou, eu mato, ou seja, a ação concreta desfazendo o delírio. Não se trata aqui de utilizar a patologização como justificativa para atos hediondos, mas é preciso considerar que a perversidade em relação ao incapaz ombreia, sim, a psicopatologia.
Loucura a dois
Generalizações, sem a avaliação individual e pormenorizada de cada integrante da dupla, não são aconselháveis, mas, genericamente, esses casos parecem ilustrar um quadro conhecido pela psiquiatria e psicologia denominado folie-à-deux (loucura a dois) e traduzido hoje pelo DSM-V (classificação de doenças mentais) por Transtorno Psicótico Compartilhado.
Delirantes
Trata-se de uma doença mental em que seus integrantes não se reconhecem doentes. Esta perturbação implica geralmente duas pessoas que pertencem à mesma família, ao mesmo universo afetivo (um casal, por exemplo) ou convivendo durante muito tempo juntas e isoladas, no sentido emocional, do mundo externo. Supostamente um dos membros do par – que possuirá o transtorno primário – será aquele que incutirá o delírio no outro, mais dependente, submisso ou sugestionável.
Descarte
Em geral não há o elemento que leve dados de realidade para a dupla, ambos, em sua relação algo simbiótica acreditam em suas criações e delírios. No caso, na eliminação do terceiro elemento (o filho de um dos componentes do casal) como suposta resolução de conflitos, na premissa e cultura do descarte mesmo, que marca as relações em nossa época.
Caso clássico

Um caso clássico de folie-à-deux é o das irmãs Papin, que em 1933, mataram, na França, suas patroas e arrancaram-lhes os olhos, dilacerando seus corpos com instrumentos cortantes, como se preparassem uma ceia. Eram consideradas empregadas-modelo e, no seu julgamento, não conseguiram se valer de nada que justificasse seu ato. Disseram ainda, na ocasião, que gostavam das patroas. A única questão, e essa parece explicar parte do caso, é que não se falavam. A palavra, o diálogo, não foram instituídos nessa relação e, em seu lugar, o silêncio subvertera qualquer autoridade.
Psicoses
O psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan forneceu contribuições valiosas sobre a etiologia das psicoses com base no estudo desse caso que, inclusive, foi transposto em filme sob o título “Entre elas”. Muito elucidativa da gênese e desenvolvimento desse transtorno infelizmente cada vez mais comum na sociedade.








