“Fedra”

A rotina de professor me transformou em um ser acelerado, sempre correndo pela cidade, refém dos ônibus, dos táxis e dos carros de aplicativos, e senhor dos caminhos, das ruas e dos atalhos. Sobretudo dos atalhos.
Um deles me faz cortar o maior cemitério curitibano, no bairro Água Verde, duas vezes por semana, no meio da tarde, encurtando em quase quinhentos metros o meu trajeto.
Entro por um portão e venço em poucos minutos a reta desalinhada, feita de pedras de um granito escuro, das cores da saudade, e ainda mais escuro pela ação do tempo, e depois saio pelo portão oposto.
Tarde dessas eu entrava apressado pelo cemitério quando chegou a mensagem do cancelamento da aula particular para a qual me dirigia. Perdi a pressa e arrefeci o passo.
Turista involuntário dentro da minha própria cidade, comecei a reparar nos mausoléus, nas placas de bronze, nas esculturas sacras, nas lápides, principalmente nos jazigos onde retratos antigos perpetuavam os rostos de entes queridos.
O retrato de uma moça loira me chamou a atenção. Os cabelos claros e levemente cacheados, cortados na altura dos ombros, a pele muito branca, olhos azuis, um colar de pérolas pequenas no pescoço, a boca sem pintura, levemente entreaberta como a esboçar um sorriso.
Do lado da foto, a identificação: nascida em Curitiba, no dia 17 de janeiro de 1941, falecida também na capital paranaense, em 19 de outubro de 1962, e o nome incompleto: “Fedra E.”, e nada mais se podia ler naquelas letras esmaecidas.
Fotografei a placa e nos dias que se seguiram tentei, em vão, obter informações. O rosto dela na tela do celular, visão que me foi obrigatória por dias e depois semanas.
Várias vezes aumentei a imagem para observar os detalhes. Uma moça muito bonita. Por que morrer tão jovem? Do que morrera aos 21 anos? Era noiva? O que fazia? Teria sido feliz? Teria partido em paz?
Os sites de buscas do nosso tempo não me ajudaram nas pesquisas, os jornais que consultei na Biblioteca Pública do Paraná não registravam em suas páginas nenhum obituário e não noticiavam tragédias havidas em Curitiba ou mesmo crimes que pudessem ter vitimado a jovem Fedra E.
Em um último esforço, busquei a administração do cemitério onde um atencioso funcionário – após folhear três livros antigos, referentes aos sepultamentos de 1961 e 1962 – garantiu-me que nenhuma Fedra E. tinha seu nome assentado naqueles volumes todos.
Mostrei-lhe a fotografia que eu fizera da placa, mas ele se limitou a repetir que nenhuma Fedra E. possuía registro de sepultamento naquele campo santo e se despediu de mim, indo tratar de outros afazeres.
Inconformado, fui ao jazigo e me certifiquei de que tudo estava lá: o retrato da moça, seus cabelos claros e levemente cacheados, cortados na altura dos ombros, a pele muito branca, olhos azuis, um colar de pérolas pequenas no pescoço, a boca sem pintura, levemente entreaberta como a esboçar um sorriso.
Do lado da foto, a identificação: nascida em Curitiba, no dia 17 de janeiro de 1941, falecida também na capital paranaense, em 19 de outubro de 1962, e o nome incompleto: “Fedra E.”!
Procurei um cigarro no bolso do casaco: não havia mais cigarro. O relógio marcava 17h, horário em que os funcionários começavam a fechar os portões, deixando abertas apenas as capelas para os velórios.
Saí do cemitério e entrei em uma padaria próxima. Pedi um maço de cigarros e estendi uma nota de cem reais para o pagamento da pequena despesa de pouco mais de doze reais. A funcionária do caixa recusou a nota alegando falta de troco. Grande chateação.
Estendi-lhe o cartão de débito que não pôde ser usado por falta de conexão entre a padaria e o banco. A fila atrás de mim aumentava na razão direta da minha raiva.
Uma moça loira entregou um cartão para a caixa e pagou a minha despesa. Guardei no bolso do casaco o maço de cigarros e os papeizinhos da compra. Perguntei para a moça loira como faria para lhe devolver o dinheiro. Ela se limitou a responder: “Reze por mim e fica tudo certo entre nós!”.
Despedimo-nos sem maiores explicações. Uma gentileza dela pagar minha despesa, eu quis reembolsá-la, ela não quis receber, pediu-me que rezasse por ela e estaria tudo certo entre nós.
Pela pouca idade da moça loira imaginei se tratar de alguma vestibulanda precisando da ajuda dos céus para passar em curso concorrido. Acabei achando graça nessa hipótese que me ocorrera.
Caminhando para casa, abri o maço de cigarros. Retirei do bolso o isqueiro e acendi, finalmente, o desejado cigarrinho que me faltara no cemitério.
Ao puxar o isqueiro, os papeizinhos da compra caíram na calçada e ficaram molhados, porque as calçadas de Curitiba quase nunca estão secas. Todos os números e as letras ficaram ilegíveis, exceto o nome: Fedra E.
Naquela noite, olhando o celular, eu rezei diante do retrato de uma moça loira de cabelos claros e levemente cacheados, cortados na altura dos ombros, de pele muito branca, olhos azuis, um colar de pérolas pequenas no pescoço, a boca sem pintura, levemente entreaberta como a esboçar um sorriso, nascida em Curitiba, no dia 17 de janeiro de 1941, falecida também na capital paranaense, em 19 de outubro de 1962, e que se chamava “Fedra E.”.
Semanas depois, ao cruzar novamente a reta desalinhada do cemitério do bairro Água Verde, feita de pedras de um granito escuro, das cores da saudade, e ainda mais escuro pela ação do tempo, dirigi-me ao túmulo de Fedra E.
A placa com sua identificação e foto já não estava mais lá. Em seu lugar apenas uma magnólia branca. Tão branca quanto a pele da menina que morrera aos 21 anos.
Antes de partir, olhei para o alto.
O céu estava azul como os olhos de Fedra, as nuvens pequenas como as pérolas do seu colar, o sol dourado da cor de seus cabelos.
Quase sempre chove em Curitiba, mas, naquele instante, tudo, enfim, me pareceu tão claro. E a tarde se fez branca. Branca como deve ser a paz.







