Religião

O dever de agir corretamente

Por André Moreira

O livro bíblico de Gênesis, no capítulo dezenove, narra a aventura de dois homens que visitaram a cidade de Sodoma. Nada dizia que esses homens eram especiais. Ló, morador de Sodoma, também não sabia o que faziam ali os dois visitantes e os recebeu com toda boa hospitalidade. Ele os alimentou, deu de beber e os recebeu em sua casa. Não sabemos como ele se comportaria caso conhecesse o objetivo deles, mas pela narrativa podemos supor que sua postura seria a mesma.

Chegada a noite, aqueles homens queriam continuar sua missão. Como disse, Ló não conhecia a natureza dos seus visitantes, mas conhecia a índole de seus vizinhos e insistiu severamente que os visitantes dormissem na sua casa; mal anoiteceu e os homens da cidade cercaram a casa, estavam atrás dos forasteiros. Ló tentou evitar o ataque e também quase foi vítima daquele povo, e se não fosse a intervenção milagrosa dos visitantes, Ló teria morrido. Sabemos pelo desenrolar do relato que aqueles visitantes estavam incumbidos de destruir Sodoma: “as acusações contra Sodoma chegaram a Deus” (Gênesis, 18.20). E em sinal de agradecimento a Ló, permitiram que ele fugisse com sua família, antes da destruição.

Aqui está o ponto que prende nossa atenção: a fuga de Ló e sua família. No decorrer desse texto, Ló agiu comprometido com seu dever, não hesitou em fazer o que era certo. Pierre Levy, filósofo francês, nos dirá que Ló é o exemplo de que as boas atitudes têm consequências mais impactantes do que a maldade. Segundo Levy, se não fosse assim, as cidades hoje não existiriam mais, teriam sido extinguidas pela maldade humana.

Agir corretamente é mais do que uma postura; agir certo é a escolha que adotamos para ir adiante. Dito isso, lemos ainda nesse mesmo texto bíblico que a mulher de Ló não conseguiu sustentar as convicções de sua escolha e olhou para trás: aqueles forasteiros disseram para Ló que ele não deveria parar e nem olhar para trás a fim de evitar o risco de ser consumido também.

Olhar para trás significa arrependimento, significa duvidar, ou ainda desejar o que passou, desdenhando do futuro. Ainda que o futuro seja incerto, quando estamos comprometidos com a retidão, nada, a não ser nosso próprio remorso, será capaz de nos fazer retroceder. Não volte atrás em suas escolhas. Agir corretamente pode ser difícil, traumático, mas seu impacto sempre será menor do que os causados pela maldade. Ló agiu corretamente e foi poupada, Sodoma foi condenada. Agir corretamente continua sendo a melhor opção, mesmo quando a maldade impera.

André Moreira é professor da Fabad e leciona nos campos da História, Teologia e Filosofia, disciplinas como Hermenêutica, História do Cristianismo e Ecumenismo

André Moreira

Casado com a Ana, pai da Mariana e membro da Igreja da Cidade em Pindamonhangaba. É teólogo, filósofo e historiador, especialista em Administração, Educação, Teologia e mestrando em Ciências da Religião. Autor dos livros "Religiões Comparadas”, e “Capelania”, publicados pelo Ibad. Leciona desde 2019 disciplinas como Filosofia, História e Teologia nos ensinos fundamental, médio e superior. No instagram: @lealmoreira_.

4 Comentários

  1. Agir corretamente em tempos de inversão de valores, em que grande parte da sociedade considera o “amargo doce”, a “luz, escurisade” (e vice-versa), conforme Isaías 5.20, é de fato, um grande desafio, além de um grande preço a ser pago. Que nossa disposição de defender os valores éticos-cristãos esteja acima de qualquer custo.
    Parabéns, amigo André, pelo artigo.

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