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“Virei vítima da enchente, gente”

Inhaim?

Eu, a Lolosa e a Tobiniana “tava” no barraco comendo uma galinha gorda e tomando minha pinga preferida “Queima Rosca”, aquela que entra e dá um fogo.

“Nóis” tava jogando conversa fora, falando da vida do “zôtro” e das nossas também. Lolosa contando de sua vida amorosa como ex-dona de puteiro, a chanfrona.

“Nóis” não perdoa ninguém (nem padre escapa da nossa língua) Lolosa disse que nunca achou uma “muié” que gostasse dela de verdade. Ela é velha, rodada, sargentão. Ela tá precisando de que dê um chá de xoxota nela.

Tobiniana sempre feliz, satisfeita com a sua vida sexual (ai, que inveja). Ela, sim, é esperta, só quer saber de bofe rico, dundun de neca grande, muita pegação, às vezes um poc poc. Não quer compromisso com ninguém. Eu pensei baixinho:”Eu quero, mas não tem, não acho”.

De repente, o tempo fechou, tudo escureceu. Parecia que o mundo ia se acabar, que são Pedro estava jogando “buliche” no céu. Começou uma tempestade. Vi logo que eu tava fritinha da silva.

A água foi subindo no barraco. Coloquei a gaiola da louro em cima da geladeira. E ele: “vai tomar no c…, vai tomar no c…, purutacotataco”.

O Tedão, meu burro superdotado, foi pro banheiro (ficou com bunda de fora, mas…) Nininha coloquei em cima do guarda roupa. As galinhas no encosto do sofá de napa amarela. Voltava água da privada. Lolosa foi levantando tudo quanto é coisa. Tobiniana fresca dando escândalo. Só gritava. Uiuiui.

E foi passando sujeira… garrafa pet, pedaço de pau, galho de árvores, fralda, panela, “cuié”, tampa de privada, merda então nem se fala. Tinha de todo jeito.

E “nóis” com o rodo e as vassouraas piaçavas no chão. Quanto mais puxava, mais entrava. A água tava batendo na nossa bunda… e deu uma luz. Mandei um “uatis” pra Defesa Civil.

O Zulu disse que era pra eu esperar, que outras pessoas também estavam na mesma situação. Eu disse que estava nadando na merda. Até que chegou um caminhão da prefeitura e botaram meus bichos em cima, eu, a Lolosa e a Tobiniana também.

Fomos levadas para o Poliesportivo. Estava lotado de colchão com criancinhas catarrentas, aquelas muié de havaiana igual eu, com vestido floral molhado (igual eu). Era tudo igual eu. Me colocaram num cantinho com os bichos.
Nesse Póli estava cheio de pomba. Inferno. Catei um pau e fui espantar aquela pombaiada. Ao invés de irem embora, ainda cagaram na minha cabeça.

Não precisa ficar com dó de mim, não, leitor, pobre sofre mesmo. Eu com a bunda moiada e bosta de pomba na cabeça… Mas eu ia me levantar. O que eu queria mesmo era aquela galinha gorda e um gole de pinga.

Mas tinha um homem que era surdo perto de mim. Nem umas prosas dava pra dar… Era o começo de uma longa história. Ah, quer saber, pode chorar, sim, ter dó, pobre adora se fazer de vítima…

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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