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O psicanalista como ser político – PARTE 1

Maria Luíza Lana Mattos Salomão é psicóloga e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), filiada à International Psychoanalytical Association (IPA), fundada em 1910 pelo criador da Psicanálise, Sigmund Freud, com o objetivo da difusão e formação de psicanalistas.

Escritora e leitora sofisticada, Maria Luíza possui vasto repertório cultural que articula com ações sociais como a Geladeiroteca e a Degustação Literária, promovendo a circulação da literatura por meio de livros e discussões.

Em entrevista à Folha de Franca, ela fala de seu percurso acadêmico e profissional, reflete sobre a sociedade e discute o aspecto político da Psicanálise enquanto formação, teoria e prática. “O Psicanalista como ser político” é o título de um artigo que a profissional apresentou recentemente no Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Belo Horizonte (MG). Uma entrevista que ficou tão rica que não poderia em nada ser editada ou cortada e segue, portanto, publicada em duas partes, para que o leitor conheça e acompanhe o vasto mundo de Maria Luíza Salomão. Psicanalista, escritora, leitora.

Folha de Franca – Conte sobre a sua formação acadêmica e percurso profissional.

Maria Luíza Salomão – Cursei Psicologia pela USP-RIBEIRÃO PRETO, até 1974, concluindo o bacharelato. Insatisfeita, me mudei para São Paulo, e cursei dois anos de Filosofia na USP-SP, e por lá fiquei, tendo tido uma experiência profissional marcante, em uma Escola de primeiro grau, de vanguarda, como alfabetizadora e tendo como supervisora Madalena Freire, filha de Paulo Freire. Era uma Escola em que tivemos uma breve,  mas intensa, tentativa de ter uma propriedade coletiva – funcionários, professores e coordenadores. Sem um proprietário.  Valeu por muitas décadas de estudo sociológico e antropológico, além de psicanalítico.  Depois, voltei para USP-Ribeirão Preto, que tinha se modificado bastante, na grade curricular, oferecendo maior abertura de escolas de psicologia, incluindo a Psicanálise que inexistia, no princípio da década de 70.  Imperava, em tempos de Ditadura Militar a Escola Experimental, terapia cognitiva, ou behaviorista, como era chamada na época: condicionamento de ratos em laboratório, estudos aprofundados de Skinner e isso estava bem distante do que pensava sobre o ser humano, em toda a sua complexidade.  

Retornei, de novo estudante, em 1981 para finalmente me graduar psicóloga.  Tenho duas comemorações. Em uma turma comemoro 46 anos de formada, em outra seriam 40 anos, em 2022.  Foram percursos diferentes, porque na segunda etapa estava bem mais madura e pude aproveitar melhor o que queria da trajetória como psicóloga, incluída a experiência intensa como educadora, na Escola que hoje tem o nome de Escola da Vila, na Vila Madalena, em SP.

Desde então, atendi em consultório, depois de ter tido experiências terapêuticas, como paciente, em bioenergética (SP), grupal e individual, numa vertente inspirada em Gaiarça, psicodrama individual e grupal, e finalmente em 1982 começo a minha análise pessoal, psicanalítica. Por 20 anos. Reiniciada este ano.  

Folha de Franca – Fale de sua formação como psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Maria Luíza Salomão – Em 1998 procuro formação para psicanalista na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e recebo o título de Membro Associado, em 2007.  Passo a ser membro da FEBRAPSI, FEPAL, e da IPA – Associação Internacional de Psicanálise, fundada em 1910 por Freud. 

Terminada a formação, longo período entremeado por muitas e variadas experiências pessoais, institucionais, fico ligada à Diretoria Regional da SBPSP, representando Franca. Até hoje sou a única ligada a São Paulo. Espero outros colegas que queiram se vincular a ela. É a primeira Sociedade de Psicanálise do Brasil, fundada por Durval Marcondes, também responsável pelo primeiro curso de Psicologia na USP, brasileiro. Ligada às artes, a SBPSP teve como co-fundadoras duas mulheres bem distintas na origem socio-econômica: Virgínia Bicudo, socióloga e negra, e Lygia Amaral, pertencente à uma elite cafeeira, professora primária.

A SBPSP está completando 70 anos este ano. Esta formação, longa e cara, em muitos sentidos, é continuamente realimentada por mim, através de cursos que permaneço fazendo a distância, facilitados pela pandemia, on line, e também outros que eu mesma dou, em várias cidades do interior de São Paulo, Bauru, Botucatu, São Bernardo do Campo, Marília,  Tupã, e outras.

Tenho apresentado e publicado textos na Sociedade de São Paulo, o último deles, dia 30-09-2021 – “O psicanalista como ser político”, tema que sempre me interessou, e que tinha sido publicado no Jornal de Psicanálise. Creio que o psicanalista nunca está pronto, acabado, está se fazendo a cada sessão, a cada paciente. Daí a necessidade constante de estudo e troca entre pares, e o cuidado com a formação do psicanalista, que é basicamente institucionalizada por necessidade de ter rigor no conhecimento do ofício, que implica a experiência emocional com o método, e não somente o conhecimento intelectual das teorias.     

Em 2015, terminei um curso de Especialização em Letras, pela uni-FACEF, pelo grande interesse que tenho na literatura, nas palavras poéticas tão eficazes na transformação e modulação da sensibilidade.  E iniciei um projeto, voluntário, na Biblioteca Municipal Pública de Franca, em parceria com Clemência Andrade, chamado Degustação Literária, que transforma a biblioteca em um restaurante cujo cardápio serve de entrada e de sobremesa peças musicais performatizadas por músicos francanos, instrumentistas.  E o prato principal servido sempre por mim, em leitura dramatizada com autores – somente – da língua portuguesa-brasileira. 

Trabalho que tem me dado prazer, como psicanalista, mas principalmente como cidadã brasileira, que quer pensar a história deste país tão complexo e tão sofrido desde o seu “descobrimento”, que resultou em massacre indígena, depois a triste e longuíssima história da escravidão e esta mentalidade colonialista que nos impregna e se revela em gestos menores e maiores, na eleição desde vereadores e prefeitos, governadores, deputados até presidente da República.  Mas que também perpassa a vida doméstica, no trato com pessoas que nos servem intimamente, e no destrato de tantos que vivem ou sobrevivem em sub-empregos, desvalorizados como se trabalho braçal fosse menos importante que qualquer outro. 

Folha de Franca – No artigo “ O psicanalista como ser político”, apresentado no Congresso Brasileiro de Psicanálise, você situa o ser político já dentro da instituição  como sendo ela própria a ‘pólis’, pelo que entendi. É isso mesmo? Um microcosmo político?

Maria Luíza Salomão – Toda instituição, até mesmo a família, reflete um microcosmo político. Como você cria um filho, não somente o que você fala, mas o que você cala, como veste o filho (priorizando o status, por exemplo), como se posiciona frente ao diferente – em cor, crença, ideias, religião.  E não é diferente em uma instituição que se propõe a formar pessoas que vão lidar com sofrimentos mentais.  O sofrimento mental pressupõe o pertencimento a uma família, a uma sociedade, a uma cultura.  Assim, desde pequeno estamos imersos em política, queiramos ou não. O termo ficou muito associado ao ofício do político, nem sempre leal à polis, ao respeito ao diferente, ao serviço que se deve ao público, à ideia de que antes dos interesses individuais, há que servir à liturgia de um cargo – ser político como profissão demanda devoção, integridade, um descolamento narcísico para servir até mesmo aquilo que contraria, em tese, o que você deseja para si. Em outras palavras, político como profissão é um ideal, nem sempre alcançável, nem sempre possível, muitas vezes raro de se observar no cenário contemporâneo.  A Instituição psicanalítica tem como função ser “guardiã de metamorfoses”, expressão de Elias Canetti, 1976, sobre o ofício de poetas. Temos que simultaneamente – na Instituição  psicanalítica – zelar pela tradição que vem desde Freud, até estarmos todos atentos às mudanças culturais, socio-econômicas, até mesmo antropológicas, em que as pessoas são partícipes por estarem, como cidadãs e cidadãos, no mesmo movimento de transformação que qualquer outro cidadão.  Em outras palavras ainda,  ser político está nas atitudes que reproduzem algo que gostaríamos de evitar, ou que queremos manter, e isso mora em detalhes pequenos, em palavras e gestos, em omissões também. 

Folha de Franca – Você diz que na sua formação, temia o que chamou de ‘institucionalização’. Isso poderia, nas suas palavras, representar a perda de uma atitude e a perda da criatividade, o que, afinal, também seria antipsicanalítico. 

Maria Luíza Salomão – Sim. Ainda temo. Não é somente um problema “institucional”!  Se há alguém que queira doutrinar, há quem queira ser doutrinado.  Se há uma “igreja psicanalítica”, há quem queira aderir a ela.  Há, no ser humano, em todos nós, isso que tento passar no texto, uma tendência a buscar segurança, um porto seguro, certezas, quase dogmas, que nos deem uma ilusão de que nada mudará, que estamos entronados em terra firme, territorial conhecido, e que teremos todos os benefícios de seguir o líder messiânico, a quem devemos o sacrifício de não pensar pela própria mente, como se pensar fosse tremendamente exaustivo, e dolorido.  Enfim, um grande equívoco.  Podemos, como manada acéfala, despencarmos em abismos, até mesmo mortíferos, como acontece na pandemia, se não tomamos ciência ou consciência de estudos que nos mostram o perigo que reside em ser habitado por um vírus que pouco se conhece e que para algumas pessoas é letal.  Para algumas pessoas, este invisível vírus pode ser “gripezinha”, pode ser que a pessoa até adquira covid e permaneça sem sintomas.

A questão central é a mentalidade coletiva – ter compaixão, empatia, a consciência de que o corona vírus é altamente transmissível e que você pode transmiti-lo para pessoas que você ama, preza, e quer que elas continuem…vivas!  Este é o problema “institucional”, que tem leis e normas que podem engessar o pensamento.  

A “minha” psicanálise, minha forma de usá-la no meu cotidiano (não somente no consultório) eu vejo e sinto como revolucionária, justamente por propor (e por que a vivi assim, como paciente)  que as pessoas escolham o que parece ser mais produtivo e eficaz para suas vidas – apresentá-las para aquilo que elas ainda não têm consciência que vivem e que lhe fazem tanto mal.  Esta é uma função psicanalítica, e este ofício que abracei torna muito difícil a superação de preconceitos, de juízos equivocados, crenças equivocadas!  Um hábito é muito difícil de ser superado. Todos nós abrigamos ‘pensamentos mágicos” por economia – mortífera – de um sentir-pensar que possa nos alavancar para estados de mente criativos, produtivos, pensamentos-sentimentos ligados à Vida, sem perceber a negação do que é vital e necessário.  

É neste sentido que temo a institucionalização, em forma de dogmas, messias salvadores, e conluios políticos, que possam transformar aquilo que é revolucionário em reacionário – ou seja, que faça retroceder, paralisar e não facilitar aberturas para um crescimento mental, psíquico e espiritual. 

4-Como ser filiado a uma instituição pode ceifar a criatividade? Pelo monocromatismo discursivo, dogmático? Concordo com você na ideia de que seja sempre uma covardia escutar “isto não é psicanálise”, como se houvesse alguém passível de deter uma “revelação” sagrada, indiscutível, reveladora de postura religiosa, ou no mínimo autoritária, incompatível com a atitude psicanalítica de abertura à investigação. Sobretudo, a meu ver, porque quem não está na relação analítica, não pode dimensioná-la. Por favor, estenda esse raciocínio acerca do outsider regrador. 

Maria Luíza Salomão – Quando entrei na SBPSP à guisa de me lembrar no futuro (risos) eu escrevi um trabalho para apresentação na FEPAL – Federação da Psicanálise na América Latina – “Talento e Sorte: vicissitudes na formação psicanalítica”.  

Neste trabalho trabalhava com a questão da criatividade e inércia – tema do congresso.  Há sempre política institucional, a questão permeia os grupos, heterogêneos e plurais. A minha Sociedade, desde o início, inclui pluralidade de pensamentos.  

Virgínia Bicudo era leiga, nem médica, nem psicóloga e trouxe muitos aportes importantes desde o início. A Sociedade em São Paulo permanece assim, felizmente. Há ideias divergentes e convergentes. Muitas gerações de psicanalistas ali convivem.  Por vezes harmonicamente, por vezes de modo apaixonado, travando lutas intestinas.  As paixões exigem ser domesticadas, mas não empalhadas. O que é permanente desafio.  O que desapareceu de cena, e que coincidentemente acontecia durante o período da Ditadura Militar, é algo perigoso. Alguns grupos, escolas psicanalíticas, chamavam a sua forma de exercer psicanálise de a “verdadeira psicanálise” (em geral kleinianos tinham esta atitude, para mim, antipsicanalítica). 

Não há a verdadeira nem a falsa psicanálise. Há psicanalistas rígidos e pouco permeáveis às próprias transformações, pessoais e técnicas. 

A psicanálise exige uma atitude investigativa, já que seu objeto é inefável, incomensurável, por definição desconhecido – o inconsciente.  Inconsciente que habita analista e paciente.  O analista, pelo ofício e função, deve estar disponível para as mudanças (nele mesmo primeiro, e para as do paciente, depois) – ou seja, o analista precisa se dispor a se conhecer, e a se desconhecer no processo analítico. Cada paciente lhe coloca em um lugar desconhecido, para ele, para o paciente. Assim deve ser – uma atitude permanentemente desconfortável, mas necessária, para as descobertas que vêm, mas apenas e tão somente se há olhos para ver, ouvidos para escutar, alma para crescer…

Antipsicanalítico é, para mim, se refugiar em teorias, criar atitudes “nós versus eles”; achar que é “dono da verdadeira psicanálise”, o tal “narcisismo das pequenas diferenças”, conceito de 1921, de Freud, é representativo do que seja antipsicanalítico.  Quem defende a posição, como se estivesse defendendo um time de futebol – “vestindo a camisa”.  Precisamos, em psicanálise, das diferenças, da pluralidade, se queremos ter integridade no ofício – cada ser humano é único, tem uma especificidade, e demanda uma flexibilidade, uma plasticidade e uma cultura ampla e irrestrita do analista.  Por outro lado, respondendo a uma provocação sua, boa repórter que é, não se trata de viver um calvário, em que o sofrimento seja necessário para as mudanças. 

O que ocorre é que, na atmosfera vivida na formação do psicanalista, nos defrontamos com aspectos narcísicos dentro de nós mesmos.  Queremos “inventar a roda”.  E, de verdade, nos defrontamos com pessoas que já tiveram muitas experiências – não intelectuais – mas emocionais no embate com as dores e sofrimentos que todos nós defrontamos.  Não se trata de ter traumas que se resolvem na análise, são questões humanas que nos acompanham desde que nos denominamos “humanos”.  Temos a tendência de nos fixar no nosso umbigo. Ao olhar em volta, sofremos em não ver “o que é espelho”.  Sofremos ainda mais quando vemos que não somos o que pensávamos ser.  E como descobrimos isso é que é sofrimento atroz – pelo olhar do outro.  É o outro que nos amplia a percepção do que somos. Dói. Mas faz crescer. Eu bendigo meus 20 anos de análise pessoal, e agora, a reanálise que retomei agora, porque precisamos de tempos em tempos repaginar (risos).

São os analistas que definem rumos de abertura e fechamento para a disciplina psicanalítica.  A psicanálise é um método – pode ser bem ou mal usado. 

A instituição psicanalítica mantém algumas atitudes políticas essenciais.  Por exemplo, a SBPSP tem se esmerado em ter o registro histórico das gerações que por ali passaram. Isso é memória, mas também é o futuro. Sem memória, repetimos, e repetimos erros (e até acertos limitadores) que poderiam ser pensados e encaminhados diferentemente. Por vezes os erros nos permitem aberturas de avenidas de novos pensares. E novos sentimentos também. 

Outra atitude política é ver nas diferenças algo que precisa ser respeitado. Discutir, articular, contrapor ideias é favorecer profundidade, é reconhecer complexidades, é fugir de simplificações indevidas, mutiladoras, que podem mutilar o sentir-pensar.  Não é negativo ser político – necessário é saber que há territórios (íntimos e de mentalidade coletiva) difíceis de conquistar. Temos nossas “faixas de Gaza” –  nem para mim, nem para o outro, por vezes difíceis de definir, se não houver de ambas as partes um com-ceder. 

Estas são atitudes políticas genuínas. Difíceis. Complexas. Que exigem maturidade e maleabilidade. 

Lidar com o “outsider regrador” significa compreender que há uma mente fascista, doutrinária, mutiladora, dominadora, tanto em mim, como analista, como no paciente, como entre os pares, os psicanalistas fechados em “panelinhas”. 

É preciso reconhecer o regime político que vigora no momento, na relação da dupla, do estado de mente predominante, em um e no outro. O ofício de psicanalista demanda esta busca de reconhecimento. Não somos perfeitos, não somos cem por cento saudáveis, mas buscamos expandir nossa saúde mental, nos submetendo a muitos anos de análise e de submissão aos que estão na estrada há mais tempo do que nós.  Reconhecer a dedicação e competência dos que viveram antes e nos legam suas experiências vitais.  Creio que o “caráter iniciático” da formação para psicanalista vem daí… há que ter algum grau de submissão, e outro de reconhecimento do que me torna uma psicanalista ímpar, com ideias próprias.  Mas não estarei “inventando a roda”. Muitos, antes, trilharam e asfaltaram caminhos que hoje trilho. Outros caminhos, terei que abrir com meu esforço e experiência pessoal.

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

4 Comentários

  1. Muito boa a entrevista, a Psicanálise é algo importante na vida de todos nós. Já fiz algumas sessões de Terapia Cognitiva e foi ótimo.
    Parabéns a ambas, Entrevistada e repórter.
    Abraços!

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