Agricultura sustentável e o papel do controle biológico

A busca por sistemas agrícolas mais sustentáveis deixou de ser uma tendência e tornou-se uma necessidade urgente diante dos desafios ambientais, sociais e econômicos do nosso tempo. O Brasil, potência agrícola mundial, tem a responsabilidade de produzir alimentos em quantidade e qualidade, mas também de preservar os recursos naturais que sustentam a vida. Nesse contexto, o controle biológico de pragas desponta como um dos pilares para promover uma agricultura que concilie produtividade e sustentabilidade.
Desafios do modelo convencional
Historicamente, a agricultura brasileira se consolidou baseada em um modelo de produção intensivo, com uso crescente de insumos químicos, especialmente os agrotóxicos. Embora eficazes no curto prazo, esses produtos apresentam efeitos colaterais: contaminação do solo e da água, desequilíbrio ecológico, intoxicações humanas e redução da biodiversidade. Além disso, pragas agrícolas como lagartas, percevejos e moscas-minadoras frequentemente desenvolvem resistência aos inseticidas, exigindo doses maiores ou moléculas cada vez mais caras. Esse círculo vicioso mostra que a dependência exclusiva dos produtos químicos não é sustentável.
O potencial do controle biológico
O controle biológico consiste no uso de inimigos naturais – predadores, parasitoides e microrganismos – para reduzir populações de insetos-praga. Essa prática, parte do manejo integrado de pragas (MIP), oferece vantagens ambientais, econômicas e sociais. Ao contrário dos agrotóxicos, os agentes biológicos não deixam resíduos, preservam inimigos naturais e contribuem para restaurar o equilíbrio ecológico nos agroecossistemas.
No Brasil, o avanço do setor é expressivo. Atualmente, mais de seis milhões de hectares já contam com algum tipo de controle biológico, abrangendo culturas como cana-de-açúcar, soja, milho, citros e café. Empresas nacionais produzem em larga escala parasitoides como Cotesia flavipes, utilizados contra a broca-da-cana, e predadores como Chrysoperla externa, importante no combate ao bicho-mineiro-do-cafeeiro. O país tornou-se referência internacional nesse campo, tanto pela inovação científica quanto pela adoção prática no campo.
Pesquisas da Universidade de Franca
Na Universidade de Franca (UNIFRAN), os Programas de Pós-Graduação em Ciências e Ciência Animal (níveis de mestrado e doutorado) têm realizado pesquisas de ponta que fortalecem a base científica da agricultura sustentável. Entre os principais focos estão:
- Eficiência do predador Chrysoperla externa em cafezais da Alta Mogiana, avaliando seletividade a inseticidas e sua capacidade de reduzir populações do bicho-mineiro.
- Efeitos das mudanças climáticas sobre a interação entre pragas agrícolas, como Leucoptera coffeella, e seus inimigos naturais, prevendo cenários futuros para o manejo sustentável.
- Uso de extratos vegetais e compostos naturais como alternativas ao controle químico, ampliando o leque de ferramentas para o produtor rural.
- Identificação de compostos voláteis de plantas, entendendo como os sinais químicos emitidos pelas plantas podem atrair inimigos naturais ou repelir pragas, abrindo novas possibilidades para o manejo sustentável.
- Integração de práticas agroecológicas com o manejo integrado de pragas, garantindo equilíbrio entre produtividade e conservação ambiental.
Essas pesquisas não apenas produzem conhecimento científico de alto impacto, mas também formam mestres e doutores qualificados para atuar no setor agrícola, na indústria de bioinsumos e no ensino superior. Além disso, aproximam universidade, produtores e sociedade, por meio de parcerias que tornam os resultados aplicáveis no campo.
Café e sustentabilidade: um exemplo regional
A região de Franca e da Alta Mogiana, conhecida pela excelência na produção de café arábica, oferece um exemplo concreto da relevância do controle biológico. O bicho-mineiro (Leucoptera coffeella) é considerado a principal praga da cultura, capaz de reduzir drasticamente a produtividade e a qualidade dos grãos. O uso intensivo de inseticidas gerou, ao longo dos anos, custos elevados e riscos ambientais.
Com a introdução do controle biológico por crisopídeos (Chrysoperla externa), os produtores passaram a contar com uma alternativa eficaz, de baixo impacto ambiental e economicamente viável. Hoje, a liberação desses predadores já alcança quase um milhão de hectares de cafezais no Brasil, representando um marco no avanço da agricultura sustentável. Esse sucesso só foi possível graças à interação entre pesquisa científica — incluindo a realizada na UNIFRAN —, empresas de bioinsumos e produtores rurais.
Conexão com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
O uso do controle biológico está alinhado com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU. Entre eles, destacam-se:
- ODS 2 (Fome zero e agricultura sustentável): aumento da produtividade agrícola sem comprometer os recursos naturais.
- ODS 12 (Consumo e produção responsáveis): substituição gradual de insumos químicos por alternativas renováveis e seguras.
- ODS 15 (Vida terrestre): conservação da biodiversidade e dos ecossistemas.
Dessa forma, ao investir em práticas biológicas, o Brasil contribui não apenas para a segurança alimentar nacional, mas também para metas globais de sustentabilidade.
Conclusão
A transição para uma agricultura sustentável exige mudanças profundas de mentalidade e de práticas. O controle biológico não é uma solução isolada, mas uma ferramenta estratégica dentro de sistemas de produção mais integrados e resilientes. Ele simboliza a possibilidade de aliar ciência, inovação e tradição agrícola em favor de um futuro no qual produção e conservação caminhem juntas.
O Fórum Franca Sustentável, ao abrir espaço para o diálogo sobre temas como esse, fortalece o papel da sociedade na construção de caminhos coletivos para um desenvolvimento que respeite os limites do planeta e valorize a vida em todas as suas formas. E a Universidade de Franca, com suas pesquisas em mestrado e doutorado — desde o estudo de inimigos naturais até a identificação de voláteis de plantas na ecologia química e o manejo de pragas — reafirma seu compromisso em gerar conhecimento aplicado que transforma a agricultura e beneficia toda a comunidade.
Texto de:
Profa. Dra. Alessandra Marieli Vacari
Entomologista, Docente e pesquisadora nos Programas de Pós-graduação em Ciência Animal e Ciências, além de docente do curso de graduação em Engenharia Agronômica da Universidade de Franca.
Em parceria com:
Samarah Gomes de Almeida
Bióloga, doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Promoção de Saúde da Universidade de Franca.
Pedro Sandoval dos Santos Ribeiro Cavallari
Biólogo, doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Universidade de Franca.
Isabela Andrade Costa
Engenheira Agrônoma, mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca.








