Diálogos Sustentáveis

Franca pode se tornar um Polo de Moda Sustentável?

Por Natalie Ferreira

Franca é reconhecida como um grande polo brasileiro do setor de couro/calçados e atualmente também é conhecida como produtora de lingeries, moda fitness, acessórios e cosméticos. Todos esses setores são considerados indústria da moda.

São cerca de 50 mil empresas ativas que empregam uma média de 20 mil pessoas na cidade e região. A maioria delas ainda são ligadas ao setor calçadista, mas as empresas do segmento têxtil e de confecção vem crescendo, empregando em torno de 2 mil pessoas. Na cidade são produzidos couro, solados, metais, estamparia, calçados, lingeries, beachwear, confecção de moletons, moda fitness, lingerie. Os cosméticos também crescem e são inseridos na indústria da moda.

No mundo, são produzidas 150 bilhões de peças de moda por ano, muitas feitas com materiais não sustentáveis e descartadas de forma inadequada, como aterros ou incineração (FASHION REVOLUTION, 2024).

A indústria da moda é considerada uma das mais poluidoras, com relatos de trabalho análogo a escravidão, trabalho infantil e condições precárias de trabalho e remuneração baixa.

No Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB), produzido pela organização do Fashion Revolution Brasil, de todas as marcas avaliadas no ano passado (2024), apenas 16% alcançaram algum grau de transparência; a marca de Franca pontuou zero, ou seja, não divulga informações sociais ou ambientais relevantes.

Diante desse cenário, a cidade de Franca poderia atuar com indústrias da moda por um viés sustentável?

Quais são os desafios encontrados? O primeiro dele é que a maioria das marcas locais não trabalham por meio de transparência, divulgando publicamente dados sobre direitos trabalhistas, cadeia de fornecedores, processos de produção, geração de resíduos e descarte. Também é necessário rever sobre os impactos ambientais, como os resíduos tóxicos da produção do couro, o consumo energético, emissões de CO2 e descarte inadequado de resíduos, produtos, acessórios e embalagens.

Para que a cidade possa fazer parte de um futuro sustentável e inovador, é necessário que as indústrias assumam responsabilidades por condições decentes aos trabalhadores, com remuneração justa e combate a trabalho forçado. Também é importante adotar práticas de economia e design circular, investindo em técnicas de upcycling (reutilização de materiais residuais) e reciclagem. Utilizar de fibras e processos naturais e regenerativos também reduzem a poluição ambiental.

A transparência das marcas locais, divulgando dados sobre governança, emissões, políticas de diversidade sustentabilidade demonstram confiança diante dos consumidores, demonstrando de maneira clara o compromisso das empresas locais com seu público. Avaliar e reduzir os impactos climáticos na produção e transporte estimulam o uso de fontes renováveis e eficientes.

Outro ponto importante a se destacar é que as marcas invistam e incentivem a extensão da vida útil de seus produtos por meio de reparos e programas de recolhimento de peças descartadas.

Por meio de iniciativas e ações sustentáveis por parte das empresas locais, Franca poderá seguir e se destacar como um polo industrial de grande valor no setor da moda. Contudo, os desafios são igualmente grandes: a transição para uma indústria sustentável exige transparência, direitos trabalhistas garantidos, formulação de políticas socioambientais claras, e uma abordagem sistêmica de economia circular e materiais regenerativos.

Mais iniciativas ligadas a Moda como eventos institucionais demonstram o potencial de mobilizar industriais locais para mudanças concretas, impulsionando um futuro mais justo, diverso e sustentável para a indústria da moda em Franca.

Por Natalie Ferreira é designer de moda e coordenadora do curso de Gestão da Produção Industrial da Fatec Franca

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