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O menino no porta-gente

Há algumas semanas, estava a trabalho na cidade de Piracicaba–SP. A caminho da instituição que faria a diligência e os assessoramentos, me acostumei com a rota que fazia repetidamente. Com a segurança – adquirida à moda antiga – observava alguns pontos de referência para não errar o caminho. Sempre passava pela Rua Ipiranga, onde é localizado o Sesc. Como um bom “francano”, fica fácil de mapear e não esquecer. Uma observação interessante, a estrutura do Sesc de Franca é bem maior.

Na condição de um “exemplar” boêmio, ficou na memória o caminho da choperia “Maravilhoso” na rua Luiz de Queiroz. Confesso que nosso famoso “Bar da Careta” tem um chopp e o torresmo que é injusta a comparação – orgulho da alta mogiana. Sempre que passo pela Rua Tiradentes na cidade de Piracicaba, onde fica a Biblioteca municipal, paro no semáforo. Ali, costumo ver um simpático vendedor de panos de pratos.

Com um sorriso humorado e esperançoso, deixa na mureta alguns montes, leva em um dos ombros um maço grande enquanto anda pela calçada abrindo um de seus panos branquinho e argumentando. Sempre o cumprimento com um caloroso bom dia, e faço a oração de que tenha boas vendas. Pois, trata-se de mais um brasileiro tentando ganhar o pão de cada dia.

Já em uma ponte que passa sobre o rio, início da BR-373, noto no retrovisor uma viatura da polícia Civil. Seguindo, passo o arco e entro a direita em direção à Avenida Jucelino Kubitschek de Oliveira. Como dizem os mineiros, sigo “toda vida” até chegar ao posto de combustível em um cruzamento. O semáforo fecha, e a viatura passa ao meu lado esquerdo e para mais a frente aguardando. Observo um garoto de um pouco mais de dezoito anos, no “porta gente”.

Ele olha para o motorista que está atrás da viatura e faz um sinal de “V” de “vitória” com dois dedos. Solta um sorriso – quero crer imaturo, e olha para meu lado, também me cumprimenta com um “joinha”. Abre o semáforo, a pessoa levanta seu simbólico troféu que está em seus pulsos. Que momento triste de ver um homem tão jovem sendo levado a análise do Estado.

Lembrei-me da reflexão feita por um dos maiores juristas do mundo, o italiano Francesco Carnelutti. Em seu livro: As Misérias do Processo Penal, traz à tona que: “O homem não nasceu para a prisão. A prisão é contra a natureza. É por isso que faz sofrer tanto. E não somente o homem preso, mas também o homem que prende. A prisão mortifica, degrada, desumaniza. Mesmo quando necessária, a prisão é uma miséria”.
Assim penso, será que aquele garoto compreende que não nasceu para ficar preso? Que naquela jaula mortificará e desumanizará ainda mais sua condição de ser? Que o símbolo erguido como troféu é a na verdade a miséria de sua vida? Triste construção do currículo. Não estou aqui fazendo apologia ao crime em detrimento ao Estado. Quero aqui refletir esta imagem terrível do cotidiano.

Este garoto, antes de ser condenado pelo Estado Juiz, parafraseando Carnelutti, ele já está na “prisão”. Complemento dizendo, aquela “prisão” apaixonada pelo crime. Minha compaixão quer crer que ali, naquele garoto que está no “porta-gente” da viatura, há um ser humano que está muito longe de seu potencial de ser bom. Não sabe para que veio ao mundo. Escolheu o caos.

Dione Castro

É administrador de empresa, estudante de gestão empresarial pela Fatec, graduado em direito e um eterno curioso.

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