Colunas

Histórias do outro lado do espelho

Parte V

Depois de encarar por algum tempo seu reflexo no espelho — ela não soube precisar aproximadamente quanto tempo ficou ali, pois a noção de tempo e espaço naquele lugar era difícil de entender —, a secretária recobrou um pouco sua sanidade e tentou encontrar várias explicações para o que poderia estar acontecendo. A loucura parecia ser a explicação mais plausível, mas essa hipótese ela se recusava, com veemência, a aceitar, pois havia crescido vendo as mulheres da sua família sucumbirem a, pelo menos, um transtorno mental que as prejudicara profundamente. Ela tinha pavor de que isso pudesse acontecer com ela. O único diagnóstico que possuía era o de uma depressão leve, e a moça desejava que continuasse assim.

A secretária passou as mãos pelo espelho e, com o tempo, foi percebendo seu rosto se transformar: rugas profundas apareciam em sua testa — e ela tinha apenas vinte e cinco anos. Seus cabelos estavam ficando mais ralos e grisalhos. Ela chorou. Naquele momento, pôde encarar toda a fragilidade que tentava esconder de todos, e principalmente de si própria — fazendo cursos atrás de cursos, se enfiando no trabalho para aplacar a dor e o vazio que sentia e que nada preenchia. Ela foi se encolhendo até ficar em posição fetal no chão frio daquele banheiro fétido.

A secretária cheia de vida e intelecto não passava agora de um ser podre e perdido em mediocridades, futilidades e, sobretudo, paradigmas aos quais a sociedade a havia condicionado desde a mais tenra idade. Ela chorou e chorou, até se cansar — e, mesmo cansada, sabia que precisava sair dali.

A pobre secretária, que não passava de um ser digno de pena diante daquele espelho, lembrou-se de que, mesmo diante daquele reflexo asqueroso, ainda era a jovem cheia de vida que queria “crescer na vida”, viver, amar, sorrir — e isso lhe deu forças. Ela se levantou e, mesmo cortando os dedos, arrancou o espelho da parede e saiu correndo corredor afora — o mesmo corredor que ela tivera de encarar algum tempo atrás. Enquanto corria em direção à secretaria, o corredor ficava mais estreito e longo, mas ela não se acovardou. Correu — Deus sabe por quanto tempo — e conseguiu chegar até a sala.

Dentro da secretaria, permanecia a mesma temperatura de antes, e os itens estranhos também continuavam lá. A secretária foi até o estacionamento, a fim de entrar no carro e ir embora, mas não havia nada lá. Nada — apenas o vento batendo contra as árvores do jardim. A rua estava deserta, e nada havia ali. Mas a secretária não sentia mais medo, pois sabia que era capaz de enfrentar tudo o que viesse.

Ela fechou os olhos, jogou o espelho no chão e, por entre o barulho dos estilhaços, gritou:

— Isso é só um pesadelo, e eu vou acordar!

— Alice, você vai se atrasar para o trabalho. O que você faz tanto aí, de frente a esse espelho?

A secretária abriu os olhos e percebeu que estava em seu quarto, mirando seu reflexo no espelho, sendo acordada de seus devaneios pela voz acolhedora de sua mãe.

Depois do corredor, a secretária Alice pôde se enxergar por detrás do espelho, encarar suas mazelas e descobrir que era capaz de coisas inimagináveis. Descobriu que o corredor escuro e estreito já não lhe causava mais medo. E ela era apenas mais uma Alice encarando seu reflexo e imaginando histórias por detrás do espelho.

Evanuse Fernandes

É Graduada em Psicologia pelo uni-FACEF com orientação em Psicologia Analítica/Junguiana, Graduanda em História pela Uniube, e Pós-graduanda em Psicologia com Intervenção em Drogas pela Faculeste.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo