Colunas

Histórias do outro lado do espelho

Parte III

A moça olhou atentamente o corredor e, além de notar que ele realmente estava mais escuro que de costume, parecia estar mais longo e mais estreito também.

— Deve ser coisa da minha cabeça — disse em voz alta para si mesma.

Além do mais, a diretora também comentou que estava mais escuro quando chegou, então, tá tudo ok.

Ela se encorajou e, depois de levantar a cabeça e encarar o corredor, o medo começou a tomar conta dela. Pensou novamente:

Ou é paranoia, ou realmente esse corredor está mais escuro que de costume… não sei se quero atravessar, não, pensou ela ao se deparar com a ausência da iluminação — que hoje, em específico, estava tão diferente dos outros dias — era difícil não notar a diferença.

Depois de alguns minutos conjecturando coisas, a moça ignorou o medo e colocou o pé direito, decidida a adentrar o corredor. Nesse momento, pôde sentir um vento gelado que tomou conta do seu corpo, dos pés à cabeça.

Hum… esse vento… que diferença do calor da secretaria. O mais estranho é que essa temperatura é totalmente comum nas noites de julho — acalmou-se ela.

A secretária notou que a temperatura da recepção estava totalmente diferente da do corredor.

Meu Deus, será que eu estou ficando doida? — pensou ela, sem fazer piada consigo mesma, dessa vez.

— Tá certo, vamos pensar… — começou um diálogo consigo mesma, tentando retornar ao bom senso que sempre lhe fora peculiar.

Hoje eu esqueci de tomar a sertralina, mas não creio que isso tenha a ver com a minha suposta paranóia… Vamos recapitular: Vesti a blusa ao contrário — e tenho certeza de que ela estava do lado certo quando me olhei no espelho antes de vir trabalhar. E o armário… e a chave? O que está acontecendo?

A secretária começou a se perder variando em um misto de desespero e sanidade. Mas logo recobrou o bom senso, visto que ela era muito centrada, mesmo sem ter tomado seu antidepressivo naquele dia.

— Bom, vamos clarear as ideias novamente… Por que estou com tanto medo desse corredor? Com certeza as lâmpadas devem estar fracas. É só trocar.

E sobre o frio… pensando bem, está totalmente normal. Estamos em julho.

E pensando bem, novamente: se tiver algum lugar que realmente está estranho, e do qual eu deva ter medo de verdade, é dessa secretaria.

Primeiro: temperatura de 30 graus em pleno julho.

Objetos que eu não reconheço.

Estacionamento praticamente vazio.

Cadê os alunos? E os professores?

Tá certo que às vezes não vêm tantos alunos, mas… nenhum?

Tá muito estranho. Quer saber? Vou sair daqui já, ou vou pirar. Preciso falar com alguém. Vou na sala da diretora agora.

Sem pestanejar, a moça recolheu sua bolsa às pressas e adentrou o corredor.

Evanuse Fernandes

É Graduada em Psicologia pelo uni-FACEF com orientação em Psicologia Analítica/Junguiana, Graduanda em História pela Uniube, e Pós-graduanda em Psicologia com Intervenção em Drogas pela Faculeste.

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