Colunas

Histórias do outro lado do espelho

A Secretária

Parte I

O corredor era extenso e escuro — era tudo o que ela conseguia pensar. Trabalhar à noite não era exatamente seu projeto de vida, mas a gente aceita o que vier, né?

— O dinheiro — repetia para si mesma, tentando aplacar a insatisfação de estar ali.

Seu trabalho não era tão difícil: preenchia fichas, digitava ofícios e atendia o telefone quando este, raramente, tocava — afinal, a noite às pessoas não costumavam entrar muito em contato com a escola.

Havia uma janela que dava vista para o tal corredor escuro, que insistia em alcançar sua visão periférica — o conhecido “rabo de olho” — e isso lhe incomodava muito.

A secretária nunca teve medo do escuro ou de se perder em paranoias sobrenaturais, exceto por uma noite, quando tinha talvez oito anos, em que acordou no meio da madrugada com um pente emaranhado nos cabelos. Acordou assustada, pensando em como aquele pente fora parar ali, afinal, sua penteadeira ficava do outro lado do quarto, e ela não era sonâmbula, pelo menos até onde ela sabia. Nessa noite em específico, ela teve medo, pensou, conjecturou… mas logo dormiu novamente, pois as histórias de fantasmas que seu avô sempre contava nunca a assustaram — ao contrário de seus primos, que tinham pesadelos a noite toda.

A moça da recepção nunca foi de temer o sobrenatural, tampouco era neurótica com coisas de fantasmas e afins — muito pelo contrário, sempre foi bastante centrada e cética. A secretária era uma jovem solteira, com sonhos de “crescer na vida”, mas no momento, infelizmente, pensava ela, o que lhe restava era ser recepcionista naquela escola antiga e vazia.

O período noturno não era muito frequentado — havia muita evasão escolar — e, pouco a pouco, os alunos iam se dissipando e abandonando os estudos. Não por incompetência da instituição ou dos professores, mas porque a educação, de fato, está em déficit nos dias de hoje — tanto com as escolas, quanto com os alunos e funcionários, refletia ela.

Naquela noite em questão, ela estava especialmente incomodada: saíra atrasada de casa, esquecera o celular e, pasmem, havia vestido a blusa ao contrário — situação que só foi percebida pela faxineira ao cumprimentá-la quando ela chegou. Houve muitos risos por causa disso.

— Você não tem espelho em casa, garota? — brincou a faxineira, em tom bem-humorado.

A secretária ficou corada quando percebeu a displicência que cometera, por esse motivo, colocou um moletom para encobrir o erro — mesmo com os 30 graus que faziam naquela noite — e sem se importar muito, seguiu fazendo seu trabalho.

Ela até poderia ter ido ao banheiro se trocar, mas teria que atravessar aquele corredor. E, naquela noite em particular, ela não estava a fim de atravessá-lo.

Depois da conversa amistosa e bem-humorada entre as funcionárias, a secretária repôs o papel na impressora, e a faxineira se dirigiu ao corredor para voltar ao trabalho, desaparecendo aos poucos por entre as sombras do longo corredor.

— Boa noite! — disse uma mulher, não muito mais velha que a secretária, que acabara de adentrar pela porta da frente do prédio.

— Boa noite! — respondeu a secretária.

— Já apareceu algum aluno hoje?

— Ainda não — respondeu, percebendo claramente a decepção da diretora.

— Bom, com esse calor infernal, acredito que não vão aparecer poucos hoje…

— Concordo! Está muito quente e isso pode fazer com que eles desanimem de sair de casa.

— Verdade! E você, com essa blusa quente? Está doente? — perguntou a diretora, sem saber que o moletom escondia a blusa que estava vestida ao contrário por baixo.

— Não, estou bem — respondeu a secretária, com um sorriso amarelo e o suor começando a escorrer pela testa.

— Bom, vou para a minha sala. Se precisar de algo, é só me chamar — disse a mulher, muito solícita e bem vestida.

— Esse corredor está mais escuro que o normal, não acha? — emendou, sem esperar a resposta da secretária.

E, assim como a faxineira, dirigiu-se ao corredor e aos poucos foi sumindo por entre a penumbra do extenso corredor.

Continua…

Evanuse Fernandes

É Graduada em Psicologia pelo uni-FACEF com orientação em Psicologia Analítica/Junguiana, Graduanda em História pela Uniube, e Pós-graduanda em Psicologia com Intervenção em Drogas pela Faculeste.

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