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Quero ser faxineira bilíngue e ganhar em dólar

Inhaim?

Chegou na cidade um moço de rabinho, todo tatuado, numa motona e alugou uma sala pra dar aulas de “Ingreis”. E é um dos meus sonhos aprender “Ingrêis”. Bati l lá.
E ele, todo estiloso: “Ieis”. Deve ser “sim”. “quero aprender esse trem”. “Sitidau”. E me mostrou a cadeira. Era pra eu sentar. Dei nome, sobrenome, endereço, escolaridade (Mobral), nome do pai, da mãe e tudo o que ele pediu. As aulas eram duas vezes na semana, segunda e quinta, às 8 da noite. Perfect, isso eu sabia porque a filha da dona Pombinha Guerreira Martins, uma fresquinha chamada Leidi Dai, me agradecia falando quando eu passava alguma roupa pra ela, “Perfect”. Era a única palavra que eu sabia em “ingrêis”.
O curso começaria no dia seguinte. Era preciso só comprar a apostila do moço e pagar adiantado a primeira mensalidade de R$ 300 (achei caro pra chuchu). Paguei e comprei a apostila, linda, laranja e preta, com um cachorro e uma menininha na capa.

Eu quero aprender “ingrês” pra saber o que eles cantam nas músicas. Adoro aquela do Demis Russos, “Xadou”, e uma que ele canta assim:”never, forever, ai, never, iu bem mai frend”. Quero ligar na rádio e dizer quero música “tal” e entender a música inteirinha. Quem sabe conhecer um gringo e levar aquele papo?

Chegando em casa passei um uatis pra Lolosa: “Lolosa, vou fazer curso de ingrêis, não quer fazer também?”. E a Lolosa, grossa: “Eu num sei falar nem português, que dirá ingrêis”. “Pois eu vou, Lolosa, vou virar faxineira bilíngue e cobrar uma nota pelas minhas faxinas”. Lolosa deu a maior força, mas não quis ir nessa.

Chegou o dia do curso. Um tanto de moleque novo, meninas bonitas e eu lá no meio. Coloquei meu vestido vermelho sangue, uns brincões de argola, minha sandália branca de rolha e amarrei um turbante furta-cor. Coloquei uma batonzão vermelho. Fiquei gatosa (gata idosa). Cada carrão na porta, estacionei o Corcel na esquina, de descida, porque se ele não quisesse pegar eu dava um “tranco” nele.
Entrei, o professor falou: “Rélô”. E eu respondi: “rélô”, Deve ser o cumprimento de gringo. Sentei na primeira carteira por causa “das vista”. “Pessoal, bem vindo ao mundo mágico do ingrêis”, falou o professor. “Eu sou o titier”. Titier é professor. Vamos abrir o livro na primeira página: aí tem umas palavrinhas que vocês mais usam:”cachorro é dog”. “Ai lovi iou” é “eu te amo”. “wats iór name?”, “como é o seu nome”?, “têibow” é mesa, “épow” é maçã. “Rélô” é “alô”. “Cher” é cadeira (eu só conhecia a cantora ícone gay, então o nome dela era cadeira?). Vamo à primeira aula. “Ai, Iou, rer, cher (mas não era cadeira?), iti, uere.” ”Ai love eipow”. Eu amo maçã. Pelo menos isso eu aprendi. “Ai love eipow”. Daí o giz do titier e eu agachei para pegar e entregar pra ele. E ele: “tanques”. Deve ser obrigado. Quando a Fodelícia, minha vizinha, colocar o som muito alto, eu peço para ela abaixar e digo “tanques”. Por hoje é só. Na página “two” tem ezerssaizes (que será que era isso, meu Deus?). “Bai, bai”.
Fomos embora. E eu naquela cisma: “Vou falar ingrêis”. Chegando em casa tava a Lolosa e a Tobiniana tomando uma. Eu louca “modi” um golinho fui logo dizendo “Rélô”. A Lulu bebeu, só pode. “Que diacho é esse de rélô? Relô em alguém?”. “Suas inculturadas: Rélô é alô”.


“Senta aí, mulher, a Lolosa tinha a chave e compramos umas “mortandela” de tira gosto e uns “litrão” Daniela Ciccareli, pra comemorar a sua primeira aula de “ingrêis”. Eu achei “bão” demais da conta. Falei pra Nininha: “Dog vem cá com a mamãe pra fazer um cafuné”. Lolosa e Tobi não entenderam o “dog”. Eu falei que “dog” era cachorro. E a Tobi “e hot dog?”. “Hot é quente, eu aprendi no sexy shop quando comprei um batom pra esquentar o beijo”. Aí eu acudi: “Hot dog, cachorro quente”. Bingo!”. As meninas me aplaudiram. Fui ficando meio metidinha.
Pedi para a Lolosa colocar cerveja pra mim no copo de massa de tomate. “Tanques”. E ela: “o que tanques… de lavar roupas? E eu “tanques é agradecer. Passa o prato de mortandela pra mim? Tanques”?
Tobi falou: “essa Lulu tá cheia das frescurites. Falta de homem”. Aí eu tomei o peão na unha. “Olha, Tobi, eu quero ser bilíngue pra ganhar dindin”. “Mas você vai ser blingue aonde?”. “Na casa das madamas, pelo menos os filhos adolescentes não vão ficar rindo na minha cara, que não entendo o que eles falam”. “Lulu, pau que nasce torto, morre torno, mulher”. Não dei bola pro que a Tobi estava falando: inveja pura.
“Ai, Tobi, põe aquela música Jetéme”. “Só que essa é em francês”. A bicha sabe das coisas. Varamos a madrugada falando mal dos outros, bebendo e cantando.

No outro dia tinha dever e aula. Peguei o livro: Lesson one. Ligue os objetos às palavras: table, dog, hot dog. Ligar? Deve ser fazer um risco. Fiz. De noite fui pra aula. Parei o Corcel no mesmo lugarzinho e entrei. A sala tava cheia, não teve como sentar na primeira carteira. Ai, meu Deus, de longe eu não enxergo direito. Sentei na última cadeira, a que restava. E o professor, a quem nós temos que chamar de “titer”. “Gud naite”. E todos, “Gud noite”. Hoje vamos aprender o verbo “tu bi”. Ai, meu Deus, “tu bi”, o que será isso. Olha, ele explicou tanta coisa que eu não entendi bulhufas. Fala mais do que a nega do leite. Fiquei quietinha. Passou para casa e dei graças a Deus quando a aula terminou.
Fui pra casa decidida a desistir. “Ingrêis” não é pra qualquer um. Não pra Lulu do Canavial. Mas que eu tentei, eu tentei. “Bai-bai”. Prefiro minha vida “simpres” cuidando na Nininha, do Tedão, das galinhas e fazendo minhas faxinas. Deixa pra lá. Coisa pra “ingrêis” ver. E ficou na saudade.

Ilustração

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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