Precisamos falar sobre ontem (Yesterday)

O mundo contemporâneo é amplamente analisado, debatido, observado e mudado. Talvez nunca na história se falou tanto do tempo presente, da realidade concreta e das contradições que vivemos cotidianamente. Esse volume de crítica e de informações está diretamente relacionado com questões
que são muito profundas na vida de cada um e, contraditoriamente, mesmo que se relacionar nos tenha trazido avanços significativos do ponto de vista civilizatório, nos trouxe um volume maior de contradições, de angústias e incertezas.
Nos povos antigos, as mudanças aconteciam em velocidade diferente, dificilmente durante o período de uma vida humana. No capitalismo, podemos dormir tranquilos e acordar em cataclismas de proporções globais; melhor dizendo, tudo pode mudar em questão de horas. Esse sentimento de incerteza constante e de mudanças tão repentinas tem efeitos devastadores em nossa consciência, em nossa saúde, em nossa capacidade de socialização e em nossa memória. Como o hoje sempre é pesado, acreditamos que o ontem era melhor.
É natural que, em sofrimento constante, nossa mente, para não adoecer, se apegue ao prazer e aos momentos bons e não se deprima. “Yesterday” é uma música dos Beatles que trata justamente sobre isso.
Composta por Paul McCartney, a melodia simples dá a sensação de lembrança e nostalgia, sendo sem dúvida uma das mais populares do grupo de Liverpool.
Vale lembrar que, lugar de onde saíram os quatro, é uma das primeiras cidades operárias da história. Em Liverpool, as contradições capitalistas-industriais aconteceram de forma inédita, e isso obviamente influencia a visão de mundo e, por consequência, as composições do grupo. A música fala do ontem, das
preocupações que pareciam menores, do amor que era vivido de forma leve, mas que, quando chega o hoje, tudo se transforma: “[os problemas] agora parece que vieram para ficar” /”não sou metade do homem que costumava ser”/ “[por conta do amor] agora preciso de um lugar para me esconder”.
Em última instância, a música diz o quanto é deprimente e insuportável viver o hoje, “por isso anseia pelo ontem”, porque lá, o ontem é onde a felicidade é possível, onde o amor é possível, onde os problemas simplesmente não existem, são distantes.
Essa constatação da realidade e a sua fuga, que é se apegar ao ontem em negação ao hoje, é um sintoma das mazelas que o sistema atual causa nos indivíduos. Nesse sentido, esse fenômeno de fuga está intrinsecamente ligado à necessidade de consumo; o comportamento que é esperado por aqueles que sentem vazio existencial em relação ao hoje é o consumo de mercadorias que suprem essa necessidade de bem-estar. Cobramos de quem convivemos uma perfeição absurda, queremos um prazer igual ao encontrado nas mercadorias. Mas as mercadorias também não realizam o prazer, elas apenas fetichizam nossa dor, e, quando elas não funcionam e nos causam dor novamente, simplesmente as trocamos buscando novos prazeres. Nas mercadorias, esse prazer mais instantâneo e efêmero é alcançado, mas em nossas relações, demandam tempo para isso acontecer.
Assim, acabamos, de forma inconsciente, estabelecendo uma relação mais humana com as mercadorias, pois elas ocupam um lugar de saciedade de felicidade em nosso cotidiano, e acabamos estabelecendo com as pessoas uma relação que o filósofo e marxista húngaro György Lukács chamou de reificação:
tratamos as mercadorias como pessoas e as pessoas como coisas. Diversos intelectuais, alguns inclusive fora do espectro marxista, já identificaram por caminhos diferentes esse fenômeno da coisificação das
pessoas e do ser. Nos tirar do hoje, em nome de uma memória abstrata do ontem, faz com que nos apeguemos àquilo que era suposta e idealizadamente bom, e quando no presente nos deparamos com qualquer defeito em nossas relações reais, “simplesmente as descartamos como coisas”, e isso impede, pela efemeridade, o estabelecimento de laços humanos duradouros e com profundidade.
Nunca estivemos tão solitários e desapegados ao mesmo tempo, e com saudosismo de um passado idealizado. Se observarmos a mídia, veremos que nunca houve tantos reboots de filmes, séries e novelas como estamos acompanhando nos últimos tempos. Só que essa solidão e falta de solidariedade são desumanizadoras do ponto de vista social. Só chegamos enquanto espécie onde chegamos justamente por conta da nossa capacidade de socializar, e essa sociabilidade ajuda os indivíduos a produzir e sobreviver no sentido amplo do que isso significa.
Não à toa, todos os grandes sociólogos, Marx, Durkheim e Weber trataram em algum momento do fenômeno do suicídio. Aqui, apenas fazendo um parêntese, estamos tratando o problema sob a ótica social; obviamente, existem problemas de saúde mental que levam a tal ato. Do ponto de vista sociológico, esse fenômeno pode ser encarado de diversas maneiras, mas a coisificação e a desumanização produzidas pelo sistema estão, sem sombra de dúvida, entre as principais causas.
O peso das decisões que recaem sobre todos, sobretudo a classe trabalhadora, que tem sua vida abarrotada de informações e questões diretamente ligadas à sua vida pessoal, é imensa. Uma decisão, por menor que seja, pode mudar completamente a vida de uma pessoa, inclusive sem volta.
Essa pressão, combinada com a desumanização e com a alienação em relação ao hoje, é uma causa social para simplesmente as pessoas não quererem mais viver. Na sociedade capitalista, essas contradições são necessárias e reforçadas para nos manter longe do que é essencial e desumanizar as pessoas. Faz parte da engenharia construída socialmente para manter a exploração. Não é possível manter uma exploração econômica do nível que o capitalismo produz sem dividir a sociedade em maior número de partes possíveis e, dessa forma, nos deixar mais solitários possível.
Estamos tão desumanizados e inertes que não percebemos no hoje mais coisas simples, como um amor sincero e singelo, um bom amigo ou amiga. Paramos cada vez mais de contemplar o belo ou fazer coisas desinteressadas. Desejamos fazer, e por isso estamos tão deprimidos e cada vez mais doentes.
“Yesterday” toca em nossas almas porque exprime o sentimento contemporâneo: sentimos falta do ontem porque lá podíamos ser e amar sem nos preocupar com os problemas, e no hoje não podemos!








