Paulo Pereira: o autor das capas dos livros da Ática

Paulo Pereira é um artista plástico francano que em 1976 foi para São Paulo e lá brilhou na área de produção artística para edição de livros, por duas décadas na Editora Ática, especializada em obras didáticas e para-didáticas.
Suas primeiras capas foram para os grandes autores infanto-juvenis Luiz Puntel e Marcos Rey e de lá em diante, vários foram os trabalhos de sucesso do artista.
Há 15 anos vivendo em Itatiba (SP), o artista concedeu entrevista à Folha de Franca e nos fala de sua formação, percurso e de suas influências, lembrando-se carinhosamente dos amigos Oscar Kellner Neto e Antonio Coutinho, entre outros.
“Minha formação autodidata se iniciou aos nove, dez anos de idade, influenciado, em boa parte, pelo trabalho do meu avô materno, que era pintor. Embora eu não tenha convivido com ele em decorrência de seu falecimento quando eu tinha um ano de idade, a sua presença indireta através de seus quadros, foi determinante para minha formação.
Aos catorze anos, participei de uma mostra em homenagem a ele no antigo Clube Monte Líbano, em Franca. Ali, vendi meu primeiro trabalho. Fui me interessando cada vez mais pela arte moderna, devorando tudo que se tratasse de arte, inclusive a coleção Gênios da Pintura, que foi para mim, uma importante referência histórica e visual. Sempre que podia, dava um pulo até Batatais para estudar as obras do Portinari na Igreja Matriz.”
Paulo conta que a “Semana de Arte Moderna de Franca”, quando conheci uma série de colagens do poeta Oscar Kellner Neto, que junto de outros jovens artistas, vinha promovendo uma verdadeira revolução cultural na cidade, foi um evento que o marcou muito.
“Aqueles anos foram cruciais na minha crescente determinação de me tornar pintor, artista plástico, ilustrador, ou seja lá o que aquilo pudesse significar em termos profissionais. Então, surgiu uma possibilidade: ilustrar o livro ‘Contos Irreverentes’, do meu amigo Antônio Coutinho. Depois desta primeira experiência como ilustrador, e como Franca ainda não tinha Faculdade de Artes, me mudei para São Paulo e, em 1973, ingressei no curso de artes plásticas da FAAP que interrompi ao final do primeiro ano quando retornei a Franca”, lembra ele.
Artes gráficas

Quando, em 1976 se transferiu definitivamente para São Paulo, Paulo Pereira foi admitido para o cargo de desenhista no Instituto de Botânica. “Ali tive contato com aquarelas originais da ilustradora inglesa Margareth Mee, cujo trabalho influenciou bastante a minha percepção da natureza. Todo o detalhamento realista exigido pela ilustração científica, somado ao preciosismo dos mestres flamengos, influenciaram de forma definitiva minha determinação em prosseguir pelo caminho da arte. Após alguns meses desenhando orquídeas e bromélias, surgiu a oportunidade de trabalhar no departamento de arte da Editora Ática, onde permaneci por mais de duas décadas, produzindo capas, projetos gráficos e ilustrações. Meu primeiro trabalho nesse sentido, foi para o livro “Não aguento mais esse regime”, de Luís Puntel. Além de outros, destacaria a capa de “O último mamífero do Martinelli”, de Marcos Rey.”
No ano de 1998 me desliguei da editora para tocar o meu próprio estúdio, onde passei a atender algumas das principais editoras de livros didáticos do país. Hoje, além da prestação de serviços, mantenho uma loja virtual (loja.paulocesarpereira.com.br), onde comercializo reproduções fineart dos meus trabalhos.
Artes Plásticas

Paralelamente à atividade editorial, Paulo Pereira manteve uma produção pictórica “que se inicia com uma abordagem naturalista, para em seguida desaguar numa estruturação que suporta um realismo fantástico e ameaçador. Nesse contexto, surge muita fumaça, placas de trânsito, inundações e desabamentos, sugerindo um ambiente urbano degradado, porém descrito de forma quase asséptica, com uso de cores vivas e limpas e formas claramente delimitadas.
Nos trabalhos seguintes me interesso por uma composição caótica e sombria, que, com tons terrosos e texturas experimentais chegam ao limiar da abstração. Daí surge a série que chamei de “Espiral Diagramada” (1990), que tenta condicionar o caráter infinito da espiral em um traçado geométrico submetido a lances gestuais, formas concretas e transparências. Essa dualidade se fez presente no meu trabalho também em diferentes períodos posteriores, e se apresenta na série de gravuras digitais chamadas de “Garatujas” (2010) e na série de telas “Dicotomia” (2013).”
Salões e premiações

“Durante os anos 1980 e 1990, participei de vários salões nacionais, dos quais eu destaco o “4º Salão Nacional de Artes Plásticas da Funarte” e premiações em Salões de Franca e Ribeirão Preto. Em 2017, recebi Menção Honrosa pelo conjunto da obra no Salão de Artes Plásticas de Rio Claro. No mesmo ano, expus na Câmara Municipal de Itatiba a série de dez pinturas intitulada “Sobrevôo” (2013-2014), que tem como proposta uma interpretação e desconstrução do universo gráfico das embalagens de papel”, enumera ele.
Relendo os clássicos e a série “Deriva ou Nau Frágil”

“Nos últimos anos me voltei a releitura de clássicos como os “Manifestos do Surrealismo”, de Andrè Breton, “Do Espiritual na Arte”, de Kandinsky e “A Cor do Meu Sonho”, de Mirò, entre outros, que fizeram com que eu resgatasse um antigo entusiasmo juvenil e deixasse fluir algo que causasse perplexidade e estranhamento.
Com a quarentena em 2020, mergulhei no meu inconsciente através do automatismo preconizado pelos surrealistas, realizei uma série de quarenta desenhos a grafite, que nomeei de “Quarentena – Caraminholas na Pandemia”, e publiquei diariamente nas redes sociais. Ali se misturam imagens que em alguns momentos lembram Bosch, em outros, Arcimboldo, além de um viés crítico que, a meu ver permeia toda a coleção. Na sequência, publiquei uma série de desenhos a lápis de cor, que chamei de ‘Deriva ou Nau Frágil – Naufrágio’.
De lá para cá, venho tentando desenvolver uma linguagem que dê continuidade aos desenhos a que me referi, porém, numa linguagem que enfatize a materialidade dos meios próprios da pintura.”
Vida longa à arte de Paulo Pereira. E a toda forma de arte que seja clareira no obscurantismo.
Posso afirmar que depois de tantos anos, a despeito dos percalços e dificuldades inerentes a toda e qualquer profissão, não consigo me imaginar fazendo outra coisa que não passe pela criação artística. Procurando manter um mínimo de lucidez e serenidade possíveis diante da realidade medonha que nos ameaça a todos, sigo acreditando nas palavras de Wassily Kandinsky:
“Toda obra de arte é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos”.









Gostei da matéria.
Parabéns e muito obrigado!
Gostei muitíssimo da matéria e mais ainda por se referir ao meu amigo de infância que perdi contato, mas que guardo na memória em todo o tempo!
Sua contribuição de artista ao longo de carreira merece parabéns!